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Tobias Rodrigues, a Vida de um Ex Padre



Tobias Rodrigues, luso descendente, licenciado em Filosofia e Teologia no Seminário de Angra do Heroísmo, viveu uma vida de celibato de 2000 a 2009.


Filho de emigrantes portugueses no Canadá, viu a sua vida mudar numas férias nos Açores, quando tinha apenas 14 anos. Os seus pais disseram-lhe que não voltariam ao Canadá. Tobias considera que este foi um dos maiores desafios da sua vida.


Reconhece que a sua família foi o seu foco e que teve a sorte de ter uma boa educação, o que lhe traz resiliência e inteligência emocional.


Estudou e encontrou a vocação, viveu uma vida de Padre, viveu amores e desamores e acabou por deixar o sacerdócio, que pensou que ia ser para toda a vida.


Grato à vida pelo que esta lhe tem oferecido, Tobias admite que é um cidadão do mundo, dado os sítios que visitou e onde viveu.


Assume-se como um homem feliz, afetuoso, que gosta de viver com intensidade os momentos únicos que a vida nos traz.


Após completar um Mestrado em Resolução de Conflitos, hoje a sua função é ajudar empresas na Europa a construir equipas de líderes.


Nesta entrevista ao Love with Pepper, Tobias abre o seu coração e fala-nos do seu percurso de vida e do processo de descobrir uma vida depois do sacerdócio.



O que é o celibato?


A palavra celibato pode entender-se como a escolha de vida de uma pessoa que decide abdicar da intimidade sexual.



Como apareceu a fé na sua vida?


Sou de uma família católica. Eu ia à missa todos os fins de semana, frequentava a catequese, e como qualquer jovem, tinha dúvidas e inquietações. Por isso decidi estudar Filosofia e Teologia para encontrar respostas. Acho que foi a partir daí que apareceu a vocação.


Porquê o seminário?


A minha ideia no início era ir para a Universidade Católica em Lisboa, mas como estava muito ligado à paróquia, e ajudava em tudo, sabia que existia a possibilidade de me tornar Padre. Foi nesta altura que um amigo me desafiou para irmos juntos para o seminário de Angra nos Açores, onde vivia. Mas, antes de ir, ele apaixona-se. Ele ficou, e eu lá fui.


Enquanto sacerdote fez três promessas: pobreza, obediência e castidade. Quais foram as mais difíceis de cumprir, sendo o Tobias um homem livre?


Estão as três no mesmo patamar. A de pobreza, eu como padre nunca tive uma vida realmente pobre, sempre tive tudo de uma maneira bastante facilitada. Quanto à obediência, a nível institucional nunca concordei com algumas leis, mas por outro lado, esta promessa não custou muito, porque também não me pediam nada que não quisesse fazer. Por fim, a promessa da castidade, que inclui o celibato, nesta tive altos e baixos. Tive algumas paixões, e assim não sempre cumpri tanto como era suposto.


Qual o seu maior pecado na época de padre?


Talvez o de soberba, porque por vezes pensava ser melhor do que os outros.


Alguma vez teve relações amorosas e sexuais na altura que era Padre?


Como Padre tive as minhas experiências amorosas e sexuais, e não as classifico como levianas, mas sim foram experiências bonitas e maravilhosas de um jovem que se apaixonou, e que queria expressar o seu amor e paixão. Recordo estes momentos com alegria e emoção, mas também com uma certa dor por não ser permitido por parte da Igreja.


Como era lidar com a ausência do sexo, desejo e libido?


No seminário, tive seis anos para me adaptar e me conformar com esta questão. Manter uma vida ativa e a masturbação ajudou.


Como era lidar com as fragilidades de uma mulher no confessionário?


Como Padre, quando alguém falava comigo, fosse qual fosse o tema, eu tentava ouvir sem julgar, e com o respeito que tinha para com todos os meus paroquianos, tentava ajudar na medida do possível a resolver os problemas.


Como era não cair em tentação?


Não vejo a tentação como algo mau em si mesmo, mas sim como uma bênção. O sentir atração, o afeto, a paixão, o envolvimento entre duas pessoas é algo natural, são grandes dons para o ser humano. Enquanto Padre, sempre tentei viver o mais feliz possível apesar do celibato ser difícil. E nunca vi nem vejo as pessoas como uma tentação.



Sempre teve o desejo de constituir família e ser pai sendo Padre?


De ser casado, sim. Frequentemente imaginava como seria uma vida a dois, embora os filhos não fizessem parte desse imaginário.


Enquanto Padre sempre foi fiel a Deus e aos seus ideais?


Penso que Deus será suficientemente Grande para compreender todos os atos que pratiquei. O que verdadeiramente me interessa é se servi bem as pessoas que me foram confiadas nas paróquias.


O porquê de deixar o celibato?


A questão não foi deixar o celibato, mas sim passar à frente da vida de Padre, que é uma grande diferença. No momento em que vou para Roma, para aprofundar os meus estudos, pensava que a Igreja poderia mudar algumas coisas e adaptar-se melhor aos dias de hoje. Entretanto, morre João Paulo II e Bento XVI substitui o antigo Papa. Apercebo-me então que cometi um erro ao pensar que a Igreja ia mudar a ritmo que eu desejava. Foi aí que as três promessas começaram a deixar de fazer sentido. Assim começou a minha transição.


Como foi o processo de deixar a vida religiosa perante a Igreja?


Foi assim: no penúltimo ano que estive em Roma começo a ver que seria difícil continuar com esta vida, e quando regresso a Portugal no verão, falo com o Bispo, e explico-lhe que não me sinto bem e que estou pensando em deixar o sacerdócio. Queria concluir o curso, mas sem continuar a usufruir do dinheiro da diocese dos Açores. Foi então que saí do Colégio Português, um colégio frequentado pelos padres que estudam em Roma, aluguei um apartamento e comecei a trabalhar enquanto acabava a tese. O momento mais difícil foi no verão seguinte quando tive de contar aos meus pais e ao Bispo que de fato tinha que passar a página. A partir daí, deixei de exercer as funções de padre. Iniciei uma caminhada para outra vida. Fi-lo aos 33 e aos 40 anos recebi um documento do Vaticano dispensando-me de todas as minhas obrigações sacerdotais.


Alguma vez se arrependeu de ter deixado a vida religiosa?

Não, no entanto, estou muito grato por toda essa caminhada ao longo da minha vida. Tive a sorte de aprender e de conhecer pessoas incríveis e de ter a família que tenho.



Considera que a Igreja tem evoluído em assuntos relacionados com a sexualidade?


Não considero que a Igreja tenha evoluído neste tipo de assuntos, o que é estranho tendo em conta, por exemplo, que a maioria dos Padres não têm vocação para o celibato. Caso existisse mais um à vontade para rever os temas relacionados com a sexualidade, talvez se agisse de forma mais natural e tudo seria mais simples. No meu ver, isto começava com uma nova educação para a sexualidade, como por exemplo, não condenar o ato da masturbação. A homossexualidade, embora aceite em teoria, não se permite expressa-la na prática. Depois temos, entre outros, o divorcio. Como não é permitido pela Igreja, quem se divorcia e volta a casar não pode comungar. Estando amarrada a um formalismo e a uma visão doentia da sexualidade, é evidente que a Igreja não pode evoluir.


Como define a palavra Amor?


O amor é o perfeito equilíbrio entre a generosidade e a gratidão. Roubei esta definição do autor Don Miguel Ruiz, Jr.



Como nasceu o amor pela sua ex-esposa?


Conheci-a em Roma. Depois de vários encontros, conversas, apaixonamo-nos, casamos e tivemos uma filha. Entretanto, divorciamo-nos e, graças a Deus, temos uma relação de mútuo apreço e amizade.


Constituir família é mais desafiante do que seguir a vida religiosa?


São dois desafios distintos. Na vida de celibato, era eu que decidia, embora contasse com as pessoas, enquanto que na construção de uma família nós temos de partilhar, algo que não estava habituado a fazer.


Qual o seu maior ato de amor?


Estou entre o “sim” a ser padre, e o “sim” a ser esposo.


Nos dias de hoje, ainda é um Homem de fé?


Sim, mas não entendo a fé de uma forma convencional. Entendo o papel da fé e da religião como uma forma de conectar com aquilo que está além de nós. Hoje em dia pratico meditação, e vejo as religiões como linguagens espirituais que nos permitem comunicar com a divindade.


Sexualmente realizado. Vida feliz. O lema do Love with Pepper. Concorda?


Sim. É uma área que estou a explorar, pois pela primeira vez posso dizer que sou realmente solteiro. Considero que a atividade sexual seja algo maravilhoso e fantástico, uma das formas mais belas de comunicar, de conectar e de nos entregarmos ao outro.


O sexo é bom?

Se for bem feito! (risos)


Tobias Rodrigues, Formador de Equipas em Empresas

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