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Sexualidade após-aborto

Atualizado: 28 de set. de 2022



28 de Setembro, Dia Mundial do Aborto Seguro


Sofrimento e erotismo?



A morte de um filho provoca um tipo especial de sofrimento porque é uma experiência intensamente física. Ser mãe abrange não só o coração e o cérebro como também uma reação física, que implica manter e alimentar a vida de uma criança, primeiro no útero e, mais tarde, nos braços. Quando um bebé morre, uma mulher talvez ache que a base do sofrimento está no seu ventre, útero e entranhas, como se tais órgãos se tivessem rasgado e separado do corpo vivo.


Não se trata de um luto sentimental e amoroso, mas de uma dor que pode ser real e crua, que se alimenta de si mesma como um animal que devora o seu próprio corpo.


Antes da criança vir ao mundo, ela é uma parte do corpo da mãe. Em certos aspetos ela não consegue distinguir o filho de si mesma. Um nado-morto, ou um aborto espontâneo tardio, é tanto a morte da criança como a mutilação física da mãe.


A morte de uma criança pode afetar a sexualidade na sua raiz e o próprio sentido do eu feminino e até da sua identidade pessoal, o que deixa a mulher com um desejo desesperado por um bebé nos seus braços. Porque esse tipo de desejo por um filho é tão intenso quanto a desejo por se ser satisfeita sexualmente.


A mulher pode necessitar de chorar um bebé que nem sequer se chegou a mexer dentro de si, sendo apenas um minúsculo embrião, ou um conjunto de células. E a mulher chora a ideia dessa criança, todas as mudanças que o bebé traria consigo e, em especial, se tivesse sido o seu primeiro filho, a sua própria perda como mãe.


Toda a mulher que chora um bebé fá-lo à sua própria maneira e no seu tempo específico. É impossível pesar a dor em qualquer balança, ou até dizer que um aborto espontâneo prematuro é sempre mais traumático do que um mais tardio, ou que um aborto espontâneo provoca menos dor do que um nado-morto, ou que uma morte no berço é mais angustiante do que a morte de uma criança por volta da altura do nascimento, embora todas estas coisas possam ser verdade para algumas mulheres.


Para um homem pode ser muito difícil entender esta situação, talvez porque, por mais que sofra, o pai não tem o mesmo laço fisiológico íntimo com o bebé. É por isso que a mágoa de uma mulher, para o companheiro, pode ser completamente desproporcionada em relação ao que aconteceu. Contudo, também se pode dar o caso de ela estar tão envolvida na sua própria dor, que não entenda a magnitude da dele. Refere-se muitas vezes que o sofrimento aproxima o casal. Pode ter o efeito oposto, com cada um deles a viver no seu mundo pessoal de infelicidade e dor.


A morte de uma criança durante a gravidez, na altura do nascimento ou depois é, num todo da mulher, uma experiência destruidora, uma vez que todo o seu corpo tem estado a trabalhar no sentido de nutrir em amor aquela vida em botão.


A morte é uma parte da cultura ocidental muito pouco aceite e com muitos tabus, até mais do que o próprio sexo. Mesmo quando aceitamos a intensidade das emoções que surgem como a morte e o luto, raramente estamos preparados para a maneira como a dor afeta o sexo. Pode ser um choque total sentirmo-nos perplexos e confusos acerca do que sucedeu.


Qualquer estado emocional intenso afeta o que sentimos em relação ao sexo, seja alegria, depressão, ansiedade, fúria – ou sofrimento. Por vezes essas emoções fazem-nos sentir mais excitados do ponto de vista sexual. Por vezes ficamos paralisadas. Ou então modificam a maneira como experimentamos o sexo e o seu significado pessoal.


O sofrimento não é uma situação estática. É um processo com diferentes fases e afeta-nos física e emocionalmente de diversas maneiras em partes diversas da nossa caminhada. Talvez seja importante perceber que outras mulheres passaram por coisas semelhantes e que saíram delas, ouvir como o fizeram, não diminui a dor, mas torna-a capaz de sentir que faz parte de uma irmandade entre mulheres, do sofrimento e que há pessoas com quem se pode partilhar aquilo por que está a passar.


Quando uma mulher sofre, o ciclo menstrual altera-se com frequência. Pode ter um período quando não o esperava, ou ser tão abundante que é como se o corpo se desfizesse, com a infelicidade. Muitas vezes não há a mínima preparação para essas expressões físicas do sofrimento. Podemos compreender o choro, o querer dormir e o fugir disto tudo, bem como os sinais exteriores de luto que são manifestados na inquietação, na irritação ou nos ombros descaídos, na infelicidade que se vê na cara, ou no corpo. Mas é difícil aceitar que os nossos aparelhos fisiológicos básicos nos possam trair ou subjugar, de tal forma que o eu racional não é capaz de os combater.


Uma líbido enfraquecida é muitas vezes parte desse processo fisiológico de sofrimento e depressão. Seja o que for que a mente pareça querer, o corpo não lhe faz companhia. Em consequência disso e, embora uma mulher possa querer ter sensações sexuais – até se pode começar a excitar -, o corpo parece dizer não, a vagina não se amacia, não se humedece, não se abre e, ela não é capaz de ter um orgasmo. Por outro lado, o sofrimento e a dor, podem, às vezes, tornar uma mulher muito mais atraída pelo sexo. Talvez porque se sente aflita e isso aumenta-lhe a sensação de perder o controlo e, não compreenda a reação, o que é provável que a envergonhe. O sexo perante o sofrimento pode ser uma ânsia de consolação, uma afirmação determinada de viver quando se defronta a morte, ou a perda. Uma mulher em muitos casos, pode sentir que qualquer experiência que provocasse prazer seria um insulto ao bebé que morrera, ainda que o marido estivesse ansioso por ter relações sexuais, como conforto para a sua mulher e demonstração de cuidado e afeto para com ela. Saber que estas reações, completamente opostas, são ambas uma parte natural do sofrimento, talvez ajude um casal a começar a falar pelo que estão a passar, no ritmo de cada casal. A dor deve ser chorada e a conexão entre o casal, restabelecida através da dor e do amor vivenciados profundamente pelo casal, de forma que seja libertador para todos inclusive para aquele bebé.


Pode ser útil o casal reservar um determinado tempo todos os dias, por muito breve que seja, em que possam discutir e compartilhar sentimentos e emoções. Há pessoas que pensam que é uma emoção exacerbada, mas quando se enfrenta uma doença grave física tomá-la-ia a sério, e reservaria tempo para perguntar ao paciente como se sente. Pode-se usar o mesmo sistema quando há um luto.


Os pais enlutados talvez precisem de um horário frequente para saírem juntos e verem o mundo cá fora, talvez darem um passeio no campo, irem ao cinema ou ao teatro, vistarem uma galeria de arte ou um museu, fazerem uma caminhada os dois juntos. Aos poucos, os intervalos sem sofrimento serão maiores, e a morte do bebé entrelaçar-se-á como um fio vívido na textura da existência.


Importa referir que as mulheres que sofreram e têm esta realidade de um aborto, necessitam permitir-se receber ajuda e viver cada momento do luto, pois só assim irá facilitar a superação. A mulher que não faz o luto de forma consciente internamente não consegue seguir com a sua vida, e/ou futuramente ter o desejo de ter outro filho.

As pessoas que convivem com a mãe, devem ouvi-la e conversar sobre o assunto. É de evitar dizer frases do género “foi melhor assim”, porque a mulher que passa por isso não irá entender o seu posicionamento e ficará magoada. Possuir estes cuidados após o aborto, garante uma convivência mais tranquila para a mulher.

É muito importante também existir um acompanhamento psicológico. Seja para ajudar na depressão após aborto, ou para entender a situação real de uma gravidez após um aborto. Falar sobre o tema torna-o mais real e, assim, é possível reestruturar o modo como a pessoa vivia antes.


Para esse tipo de acontecimento, falar e ser ouvida é o melhor remédio. Reprimir sentimentos e posicionamentos não irá ajudar em nenhum ponto na recuperação.

O aborto é um assunto muito delicado que traz desconforto psicológico. É algo inesperado que, consequentemente evolui os sentimentos de culpa, depressão ou angústia. Tudo possui solução e com ajuda psicológica e terapêutica, as mulheres conseguem superar e seguir de forma mais sã com as suas vidas.


Dra. Liliana Brazuna, Coach Sexual



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