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Sarah Inês Moreira, Miss Transexual Portuguesa


Sarah, eleita Miss Transexual Portuguesa em 2016, uma mulher sincera, com uma bondade extrema. Os seus pais definem-na como uma guerreira e batalhadora. O seu percurso de vida comprova que não desiste facilmente dos seus sonhos e que luta pelas suas convicções.


Com que idade é que começou a sentir que não era homem?

Foi no momento que comecei a frequentar o ensino básico, com cerca de 9-10anos as minhas atitudes já tinham uma tendência bastante demarcada no feminino.

Nessa altura as pessoas, crianças da escola, começaram a massacrar-me bastante e a insultarem-me muito. Até que isso começou a fazer um burburinho na minha cabeça onde eu percebi que de facto, alguma coisa de errado se estava a passar comigo.

Mas o mais engraçado é que eu pensava sempre no feminino e não no masculino!


Quando é que se apercebeu que queria mudar de sexo?

Comecei com um processo de hormonização por volta dos 14/15 anos. Foi nessa altura que decidi contra tudo e contra todos, começar a automedicar-me.


Como é que os seus familiares e amigos reagiram?

Assumi a minha diferença junto dos meus pais aos 15/16 anos, porque tentei o suicídio duas vezes. Inicialmente os meus pais pensavam que eu era homossexual, levaram-me aos psicólogos, para tentar também eles perceber o que se passava comigo.

Na segunda tentativa de suicídio, a minha mãe realmente percebeu que exista algo de errado em mim, então o meu padrasto tomou a iniciativa de me levar a um psiquiatra.

Foi-me diagnosticado uma perturbação de identidade de género.


Já mudou o seu nome no registo? Como foi o processo?

Fiz um acompanhamento multidisciplinar de sexologia clínica com uma equipa multidisciplinar que incluía psicólogos, psiquiatras e endocrinologistas, foi assim diagnosticado uma perturbação de identidade de género, designada Transexualidade.

Assim, deram-me a possibilidade de alterar o meu nome para Sarah.

Depois de preenchido um documento, fui à Conservatória, que avaliou todo o meu processo em que este foi aprovado.

Fui uma das primeiras transexuais a mudar o nome no Registo Civil.



Porque escolheu esse nome Sarah?

O meu nome vem das duas minhas melhores amigas de escola, eram cinco aliás. Era a Sarah, a Inês, a Andreia, a Catarina e a Fernanda.

Optei por Sarah Inês de forma a homenageá-las!

Eram mulheres que me inspiravam muito, eram muito bonitas e delicadas.


Com que idade começou a transição?

Foi aos 14 anos.


Como é que se sentia antes da transição?

Era uma criança muito triste e apagada.

Recordo que sou católica embora não praticante, e a minha avó ofereceu-me uma Nossa Senhora de Fátima e eu rezava o terço todos os dias à Nossa Senhora para me dar uma vagina… o que era frustrante.


Como é ser mulher transexual em Portugal?

Eu sou uma das transexuais com mais visibilidade em Portugal.

Às vezes as pessoas que me reconhecem, olham e comentam que sou um homem, mas eu nunca fui um homem!

Hoje em dia, vejo que a transexualidade em Portugal, é mais amena, tem mais visibilidade e esclarecimento.

Alguns transexuais têm vindo a divulgar a questão nas melhores plataformas, por exemplo na televisão que transmite uma mensagem de forma muito positiva, humana e com sentido pedagógico.

Este problema está a ser encarado pela sociedade.

Quando vejo as crianças mais jovens, elas já percebem a transexualidade como algo natural e normal.





Sente preconceito quando anda na rua?

Considero-me uma pessoa bastante discreta, e tento ser o mais natural possível, mas claro que as pessoas que me conhecem e conhecem a minha história e com ignorância à mistura não conseguem visualizar uma pessoa dita normal quando olham para mim.

Tive vizinhos meus a darem-me os parabéns, meterem papeis na caixa de correio foi algo muito gratificante, foi um dos melhores presentes que tive.


Sente que em Portugal existem condições para ajudar pessoas transexuais, por exemplo, a nível de apoio psicológico?

Acho que existem condições, mas a lista de espera é demasiado extensa.

Existe um acompanhamento com direito a consulta.

No meu caso, tive que ir com o meu pai à consulta de psiquiatria, em que foi a Dra. Márcia Mota, psiquiatra que acompanhou a mim e a todo o meu processo.


Vai fazer ou já fez a cirurgia de resignação sexual?

Isso é uma pergunta que me fazem muito. Uma transexual não tem que propositadamente fazer a cirurgia de sexo, como as mulheres que nascem sem vagina, não vão deixar de ser mulheres por causa disso, como os homens que nascem com um micropênis não vão deixar de ser homens por causa disso, não vou responder a esse tipo de pergunta porque é algo muito íntimo e que me perguntam todos os dias.



Qual o momento mais difícil durante a transição?

Todo o processo em si é muito lento e moroso, recordo-me dos enjoos que tinha, das enxaquecas, comia demasiado…

O processo psíquico é complicado, as cirurgias nem tanto.


Alguma vez se arrependeu da transição?

Nunca. Voltava a fazer tudo igual.


Sente que a comunidade transexual é representada em Portugal?

Não sinto que seja bem representada, porque existe muito falta de informação. Tenho que conhecimento que Brasil que é muito melhor representado, pois já existem policias, juízas, advogados transexuais, nós em Portugal não temos isso.


Ser transexual afetou a sua orientação sexual?

Não, não nunca.


Sente-se mais confiante agora?

Sim, sem dúvida alguma. Porque eu não era uma criança, uma pessoa feliz, não era de todo um ser completo e feliz.




Quando recomeçou a sua vida sexual, como se sentiu?

Bem, sempre confiante. Sempre tive namorados que me admiravam da forma como era e como sou. Nunca foi uma confusão para mim.


Como é ser Miss Transexual Portuguesa e estar entre as 6 melhores do mundo?

Foi uma grande responsabilidade representar Portugal e que me gratificou muito.

Foi muito bom, conheci histórias incríveis. As que mais me marcaram foram as histórias da Miss Nigéria e da Miss Israelita. A Miss Israel participou no concurso com facadas nas costas, ela foi esfaqueada sete vezes em Israel só por ser transexual, isso deixou-me muito chocada.

Eu vivo num país onde posso agradecer todos os dias., em que o preconceito é mais verbal e não é físico.

Ficar entre as seis finalistas, estava perto da coroa, foi inesquecível!

Aconteceu em 2016, no dia 19 de setembro.





O que gostava de dizer às pessoas que passaram ou estão a passar pela mesma situação.

Que não devem desistir nunca dos seus sonhos, devem segui-los e conquista-los.

Devemos estar focados no que queremos e lutar e quando chegar ao final, olhar para trás, e dizer “Nossa! Valeu a pena!”.


Já sofreu algum tipo de preconceito pela escolha que fez?

Quando não tinha o meu nome alterado, ia uma repartição pública, correios e bancos.

Apresentava um cartão de cidadão com nome masculino e a foto feminina as pessoas questionavam-me bastante, olhavam e comentavam “olha um travesti!”.

Algum episódio que a tenha marcado?

Um episodio que me marcou, foi quando ia a conduzir a falar ao telefone e um polícia fez-me uma operação stop para me multar. Eu tinha o meu nome ainda no masculino, apresentei o meu cartão de cidadão, e o polícia perguntou-me - Você é homem ou mulher?”.

Fiquei muito chocada!


Sente que os jovens da nossa sociedade já estão mais abertos às mudanças ou sente ainda existem preconceitos?

Acho que os mais jovens têm a mentalidade mais aberta, estão a ser educados de forma diferente.


A transexualidade é um tipo de preconceito que vem dentro de casa, tal como a violência, o não

respeito pelos idosos, o não respeito pelos negros…


Se as crianças são educadas com vista a respeitar as diferenças, todo um mundo ficará muito mais e melhor e acho que nos dias de hoje, embora de uma forma muito vagarosa vai-se repela informação que temos, pela cultura que vamos adquirindo.


Que conselhos daria aos pais que têm filhos na sua situação?

Apoio incondicional. Eu sei de histórias horríveis de transexuais que se assumiram, mas que a família optou por colocar fora de casa, isso acontece a muitos que não têm suporte familiar, e que não têm como se sustentar e acabam por morar na rua, prostituindo-se para poder sobreviver.

O preconceito vem de dentro da família, principalmente das pessoas adultas.


O amor cura tudo?

Sim, sem dúvida alguma. O amor por nós, ao outro, ao próximo, ao animal, às coisas, o amor em Tudo

na nossa vida, é fundamental.


Sarah Inês Moreira, Miss Transexual Portuguesa



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