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O VIH/ SIDA no campo da Psicologia, por a Dra. Renata Nunes Cunha



Renata Nunes da Cunha, 32 anos e natural de Guimarães.


Tem o mestrado em Psicologia da Educação, Desenvolvimento e Aconselhamento pela Universidade de Coimbra e uma especialização em Psicologia Clínica e da Saúde. Trabalha no centro comunitário da Abraço em Braga desde a sua inauguração em 2019. É um centro de deteção precoce do VIH/SIDA e de outras Infeções Sexualmente Transmissíveis. Trabalham em parceria com o serviço de Infeciologia do Hospital de Braga para poderem dar as melhores respostas aos seus utentes. Fazem ainda aconselhamento em saúde sexual e distribuição gratuita de material de proteção (preservativos e lubrificantes).

O seu trabalho foca-se mais no aconselhamento pré e pós teste, de forma a acolher medos e dúvidas, quer em relação à realização dos rastreios, quer em relação a um possível resultado reativo. Incentivam todas as pessoas a realizarem um rastreio às IST's, onde as portas deste centro estão sempre abertas à população em geral e garante que vão ser sempre bem acolhidos.


O que é o VIH/SIDA?

O VIH é o Vírus da Imunodeficiência Humana que causa a SIDA. O VIH é um vírus que destrói o sistema imunitário, invade as nossas células, multiplicando-se e provocando a sua destruição.

A SIDA (Síndrome da Imunodeficiência Adquirida) é uma doença que resulta da infeção causada pelo VIH e está relacionada com a degradação progressiva do sistema imunitário, podendo surgir anos após a infeção. Importa realçar que estar infetado com VIH não é o mesmo que ter SIDA. As pessoas que estão infetadas com VIH são seropositivas, e podem ou não, desenvolver SIDA.

Com a evolução do conhecimento científico e o desenvolvimento de tratamentos antirretrovirais que possibilitam atualmente uma vida longa, a infeção por VIH passou a ser uma condição crónica.


Como funciona o acompanhamento psicológico?

O acompanhamento psicológico varia consoante as diferentes necessidades das pessoas que o procuram. De forma geral, os problemas de saúde mental mais frequentes após o diagnóstico estão relacionados com sintomatologia ansiosa e depressiva (muitas vezes com ideação suicida) e Stress Pós Traumático – PTSD. O diagnóstico de uma doença crónica suscita mudanças significativas na vida dos doentes. Surge a necessidade de se adaptarem a uma situação nova e aos diferentes momentos que a doença impõe. No caso de um diagnóstico recente de VIH procura-se dar uma resposta às necessidades emocionais da pessoa e promover o seu ajuste psicológico. É importante explorar o nível de informação sobre o VIH e a sua evolução, assim como avaliar a adesão ao tratamento antirretroviral. Numa fase posterior, utilizam-se abordagens cognitivas de resolução de problemas para promover e facilitar mudanças, aumentar a autonomia da pessoa na gestão da sua condição de saúde e nas diferentes esferas da sua vida.

É ainda importante referir que um diagnóstico de VIH não determina que a pessoa vá desenvolver sintomatologia patológica. Mas ser diagnosticado com esta infeção é uma experiência que altera a a vida quotidiana, podendo manifestar-se de inúmeras maneiras, com diferentes emoções à mistura.


Que apoios têm estes doentes?

Relativamente à gestão médica da doença, todas as pessoas que vivem com VIH têm direito ao tratamento antirretroviral de forma gratuita pelo SNS. As pessoas infetadas são habitualmente seguidas em consulta de Infeciologia num hospital público e têm exames e consultas periódicas de forma a promover a supressão vírica e a restaurar a imunidade. Em alguns centros hospitalares os utentes também podem ter apoio psicológico, quer para adaptação ao diagnóstico, quer em situações mais avançadas, nomeadamente no estádio de SIDA. Infelizmente, nem todos os hospitais conseguem dar essa resposta. O acesso a serviços de saúde mental ainda é dificultado por diferentes fatores: falta de profissionais no SNS, condições socioeconómicas que não permitem a procura no privado, estigma e preconceito sobre saúde mental e sobre VIH.

Incentivamos as pessoas a procurarem projetos sociais de apoio a esta temática, seja a Associação Abraço ou outras, para que possam ser apoiadas em outras áreas da sua vida. No caso da Associação Abraço, dispomos de serviços de apoio psicossocial, apoio domiciliário e uma unidade residencial, entre outros projetos.


O que é que os doentes procuram no apoio psicológico?

Procuram ajuda para se adaptarem psicologicamente à situação e a esta nova fase das suas vidas. Procuram também informação fidedigna sobre o VIH e um espaço seguro, livre de julgamentos, onde possam partilhar as suas emoções e os seus desafios. O preconceito e o estigma social em relação a esta infeção ainda são demasiado prevalentes na nossa sociedade.

Durante o acompanhamento psicológico exploramos novas formas de resolução de problemas, trabalhamos para aumentar a autonomia na gestão da doença e a perceção de eficácia pessoal. Estes doentes também procuram formas de manter, estabelecer e reestabelecer relações interpessoais significativas, manter uma autoestima positiva e esperança – perspetivar o futuro e tudo o que ele implica.


De que forma o VIH afeta a vida social, profissional, familiar e amorosa destes doentes?

O diagnóstico e o tratamento do VIH/SIDA envolve profundas e complexas implicações psicológicas e sociais. Pode ocorrer uma rutura social, mesmo em pessoas que se encontravam socialmente integradas. Isto pode resultar numa perda de suportes de inserção, como o enquadramento afetivo, o alojamento e o emprego. Podem ocorrer maiores dificuldade de adaptação à doença e ao tratamento, sobretudo quando não encontram apoio e aceitação dos seus pares e das pessoas significativas da sua vida. Muitas pessoas que vivem com VIH escondem o seu diagnóstico da família, porque não querem desiludir ou porque não querem preocupar as pessoas que amam.

Descobrir que se está infetado por VIH/SIDA pode desencadear um estado prolongado de stress, implicações na personalidade e profundas transformações no seio familiar (no que respeita a rotinas, regras, papéis e rituais familiares).

Se é verdade que o VIH pode infetar qualquer pessoa, a forma como a doença afeta a sua vida pode ser bem diferente. Pessoas em situação prévia de vulnerabilidade socioeconómica vão enfrentar desafios maiores.


Quais os maiores medos destes doentes?

A Infeção VIH/SIDA continua a despoletar o receio de contágio, habitualmente baseado em crenças erróneas, despoletadas pelo desconhecimento geral relativamente à doença. Os medos mais comuns, principalmente quando têm diagnósticos mais recentes, são relativos à sua saúde física, medo de morrer ou de sentir dor.

Costumam, ainda, surgir medos relacionados com um receio de não serem mais merecedores de amor. Medo da solidão e medo que sejam olhados apenas como uma doença e não como pessoas completas e multifacetadas.


Quais os desafios desta doença?

Para além dos desafios médico-científicos em relação à prevenção, tratamento e uma possível cura, existem ainda muitos desafios a nível social, sobre o preconceito e o estigma. Não só sobre o VIH/SIDA mas sobre todas as Infeções Sexualmente Transmissíveis. É necessário que falemos mais abertamente sobre saúde sexual, sobre saúde mental e sobre a relação que existe entre estes vários domínios.



Muitos destes doentes sentem insegurança sexual. Qual a solução para estes doentes?

É comum que após o diagnostico de uma infeção sexualmente transmissível exista um período de maior insegurança sexual. Seja por receio de contrair outro tipo de infeção, por medo de ser rejeitado ou mesmo porque há um abalo da autoestima da pessoa. Após o diagnóstico é normal a pessoa questionar-se sobre como irá viver a sua sexualidade no futuro e como se irá relacionar intimamente com outras pessoas. Importa recordar que o uso do preservativo (interno ou externo) é a melhor proteção contra todas as IST’s. Contudo, as preocupações e os sintomas ansiosos podem interferir bastante na saúde sexual, principalmente no desejo. A perda do desejo sexual, afeta não só a qualidade de vida, mas também a autoestima da pessoa. Por vezes, isso ocorre devido a uma associação negativa do VIH à sexualidade.


É possível ter uma vida sexual ativa?

Sim, sem dúvida. Com o uso do preservativo nas práticas sexuais não há nenhum motivo para que não tenham uma vida sexualmente ativa. Aliás, com o tratamento para o VIH, que permite que a pessoa atinja o estado indetetável= intransmissível, deixa de existir o risco de transmitir a infeção pela via sexual. Com a segurança de que não transmitem o vírus, as pessoas sentem-se mais confiantes para ter uma vida sexual saudável sem medos nem tabus. Claro que o uso do preservativo deve continuar de forma a prevenir outro tipo de IST’s. Adicionalmente, as novas formas de prevenção para o VIH, nomeadamente a Profilaxia Pré-Exposição (PrEP) também vieram permitir diminuir a ansiedade numa relação serodiscordante.



Que direitos têm estes doentes perante a sociedade?

Os mesmos que qualquer outro cidadão. Claro que nestes casos importa reforçar que a Constituição da República Portuguesa consagra que «Todos têm direito à proteção da saúde e o dever de a defender e promover».

Assim, as pessoas infetadas pelo VIH/SIDA (independentemente da nacionalidade, género, idade, etnia, religião) têm direito a aceder ao tratamento, à terapêutica antirretroviral.

Têm também direito à confidencialidade do seu estado serológico; direito à reserva da intimidade e da vida privada; direito ao sigilo médico; respeito pela vida privada e familiar; direito ao trabalho; proteção dos seus dados pessoais; direito à proteção legal contra quaisquer formas de discriminação; direito à liberdade, à integridade física e à segurança. Ninguém pode ser prejudicado ou discriminado em função da sua condição de saúde e as pessoas que vivem com VIH não são obrigadas a revelar o seu estado serológico seja nas relações pessoais ou de trabalho. Contar que se vive com VIH é uma escolha que cabe apenas à própria pessoa.


Como se vive hoje em Portugal com VIH/SIDA?

De acordo com os dados apresentados no “Relatório Infeção VIH em Portugal – 2022” houve uma redução de 44% do número de novos casos de infeção por VIH e de 66% em novos casos de SIDA. Ainda que se verifique uma redução dos números, Portugal continua a destacar-se entre os países da Europa pelos elevados novos casos de infeção VIH e SIDA. A taxa de novos diagnósticos em idades jovens continua a justificar que se invista na implementação de medidas preventivas dirigidas a esta população. Do mesmo modo, a elevada percentagem de diagnósticos tardios (diagnósticos efetuados quando já há sintomas de SIDA ou a ela associados) valida a necessidade de desenvolver ações dirigidas à prevenção da transmissão e promoção do diagnóstico precoce.

Por outro lado, o “Índice do Estigma das Pessoas que Vivem com VIH (Stigma Index)” concluiu que quatro em cada dez pessoas que vivem com VIH já foram alvo de algum tipo de discriminação social, e 15% já sofreram alguma situação de violação dos seus direitos. Pessoas que para além do VIH, têm outros fatores de vulnerabilidade (como serem LGBTIQA+, trabalhadores do sexo, pessoas que usam ou usaram drogas, ou imigrantes) reportam mais frequentemente situações de estigma e discriminação nos vários contextos, comparando com pessoas com VIH que não pertencem a nenhuma destas populações. Também as mulheres referem, mais que os homens, sofrerem de discriminação social e nos serviços de saúde, bem como de estigma interno e auto-discriminação[1].

Em suma, se ao nível dos objetivos internacionais da ONUSIDA para controlo da infeção, Portugal já atingiu as metas definidas, ao nível da saúde mental e da qualidade de vida destas pessoas ainda temos muito trabalho pela frente.


Dra. Renata Nunes Cunha, Psicóloga no Centro Comunitário +Abraço Braga

[1] estigma interno – quando a pessoa assume e aplica a si própria os estereótipos sociais negativos associados ao VIH. auto-discriminação – quando o próprio se isola, se exclui ou evita determinadas atividades e contextos, por ter VIH.

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