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O Outro Lado da #DANÇA, por Diana Niepce





29 de abril de 2024, Dia Mundial da Dança


Diana Niepce, 39 anos, bailarina, coreógrafa, autora portuguesa e tetraplégica. Desde muito pequena, iniciou-se no ballet vivendo num conto de fadas. A dança tornou-se numa das maiores paixões da sua vida.

Para além de dançar, Diana trabalha na investigação e na escrita e gosta de pensar no sentido do que nós fazemos no mundo. O seu trabalho baseia-se nos corpos, no sentido da transgressão e da suspensão dos corpos e como são posicionados para com um mundo.

Em 2014 caiu durante um ensaio de um trapézio e ficou tetraplégica. Não tinha muito a consciência do seu estado clínico, mas quando teve adquiriu essa noção, Diana foi obrigada a pensar na dança, nas políticas, nas hierarquias do seu corpo e na forma como o ser humano está constantemente a ser perpetuado com a imagem do seu corpo. No processo de adaptação escreveu o livro “Anda, Diana” onde retrata, com o seu humor sarcástico, como foi reaprender a organizar e a viver com o seu novo corpo. Nesta obra, Diana tenta criar impacto e tenta desmistificar a inferiorização das pessoas com deficiência, tornando-se uma ativista por esta causa.

Ainda que não deixe de frisar que a sua sexualidade devido à sua nova condição é igual à de antigamente, simplesmente porque tem uma mobilidade diferente do seu corpo, embora este continue muito flexível. No entanto, Diana refere que as pessoas com deficiência são observadas pela sociedade como assexuadas, o que de facto não é verdade.

A sua carreira é ajustada à sua condição física e a sua forma de trabalho é desconstruir as normas sociais e explicar como todos precisamos uns dos outros.

Nesta entrevista ao Love with Pepper, para assinalar o Dia Mundial da Dança, Diana Niepce fala-nos do seu ativismo e da sua condição de um corpo não normativo na dança, concluindo que tudo é possível sem desistir.


O que é a dança?

Para mim a dança é política, para além de ser o meu trabalho. É o lugar onde arranjo forças para discutir políticas sociais muito fortes. É um lugar que faz com que as pessoas pensem e repensem sobre as normas sociais. O palco para mim é um lugar de voz e de política.


Um corpo não normativo é um entrave na dança?

Qualquer corpo pode ser um entrave em qualquer situação.  A forma como as pessoas vêm o seu corpo é que pode ser um entrave, mas qualquer corpo dança.


Como é o outro lado da dança?

É uma peça minha que traz uma homenagem à história dos corpos e é também uma coreografia de corpos não normativos que traz, para além das coreografias, a forma como estes corpos são percecionados por parte dos media e do público. Este espetáculo é de contemplação e que trabalha o corpo num lugar muito virtuoso e terminando com ele em suspenso. Para além de um grande dispositivo cénico e que trabalha o equilíbrio com a aversão do corpo.



Como é que acha que a sociedade vê o seu corpo quando faz um espetáculo?

Tenho um corpo muito flexível e sei muito bem dominar a linguagem do meu corpo. Se não estiver escrito na sinopse dos espetáculos, as pessoas não percebem a minha deficiência e não conseguem ter a perceção das minhas limitações. Como a minha linguagem é muito poética, traz imagens visuais existenciais do próprio público e, então, quando acaba o meu espetáculo vejo a plateia a chorar porque o meu trabalho é sobre tensão e gera ansiedade. Por isso, o meu público está a crescer, porque este acaba por fazer uma reflexão sobre o que vê.


Qual é a relação entre a dança e a sexualidade?

As minhas peças são bastante sexuais e trabalham na linguagem da transgressão. São peças que têm muitos corpos nus que trabalham sempre com a exposição do corpo e sobre a nudez. E como as minhas peças operam num lugar que reflete a condição humana e, em questões existencialistas, então, é quase como um lugares de libertação e, ao mesmo tempo, um lugar cáustico. É sobre esse lugar o meu trabalho.


De que forma é que aborda a sensualidade, o erotismo e a sexualidade na dança?

 A sexualidade não está tão presente, mas o erotismo está sempre presente. Temos corpos nus com o objetivo de trabalhar a vulnerabilidade, a força destes corpos e a forma como eles são cruelmente belos, independentemente do que são. Também trabalho muito sobre o brutesco, a beleza e a natureza poética que está inerente a isto. Para mim todos os corpos são absolutamente deslumbrantes, sexuais, sensuais e há um lugar erótico, mas não pornográfico.


O mostrar o seu corpo ou a dança a nu é uma forma de excitação para si?

A dança opera nos lugares e nos níveis de adrenalina, e como nós bailarinos trabalhamos práticas semânticas, internas e viscerais do corpo na dança, a partir do momento em que isto é o nosso trabalho, então esses lugares são excitantes, mesmo que, por vezes, sejam trabalhos violentos.


A sua dança, sendo a nu, qual a sensação de quando lhe tocam?

Na dança o meu toque é altamente geométrico, planeado e num nível de detalhe e de execução física que é de estilo. Como estou a 2 metros de altura, a ser suportada por homens que estão em posições acrobáticas, com um nível de esforço e de resistência física tremenda, muitas das vezes sob pressão, o toque para mim está apenas ligado à relação de componente física e às formas que o emergem.


Considera que a dança é excitante sob o ponto de vista intelectual?

É muito vago, porque isto do mundo artístico é uma bolha gigante com muitas categorias e cada individuo e espectador terá interesses divergentes uns dos outros.


O que faz sentido quando dança?

Quando estou em palco não há espaço para nada, o que existe é para a peça que está a acontecer. As minhas peças são tão exigentes fisicamente que um corpo entra num lugar muito diferente, ou seja, parece que há um nível de concentração para a execução do que se pretende e não pode falhar nada.


Na sua opinião, todos os corpos normativos e não normativos são sexuais?

Não, existem pessoas assexuadas, não somos todos iguais e também não queremos ser todos iguais e temos que aceitar a diferença.


O que pretende do público que assiste os seus espetáculos? Mudar comportamentos? Criar boas práticas? Ou simplesmente libertar a imaginação e a criatividade do recetor?

Como trabalho com política, pretendo que o meu público repense o seu próprio lugar no mundo de uma forma diferente. 


Existe uma certa discriminação e preconceito na arte e na cultura em relação às pessoas com deficiência. Neste contexto, a Diana representa uma forma de ativismo?

É o meu campo de trabalho, e eu sou uma das que desenvolvem esse trabalho em Portugal e é nesse sentido que faço investigação.

 

Sexualmente realizada. Vida feliz. É o lema do Love with Pepper, concorda?

Apesar de estar solteira, acho que temos de estar bem e sexualmente e felizes independentemente da relação ou da não relação em que estejamos.


A dança é um bom afrodisíaco?

O meu tipo de dança não se encontra nesse campo, mas acho que todos devemos dançar, divertir-nos e libertar aquilo que sentimos. Enquanto se dança e também se criam relações através da dança. Eu faço dança e com ela trabalho políticas e lugares muitos viscerais da existência humana.


Diana Niepce, Bailarina, Coreógrafa e Autora Portuguesa

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