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O misterioso orgasmo feminino



Pela sua complexidade, o orgasmo feminino sempre esteve envolto em controvérsia.

Alegrias, frustrações e enganos, sempre gravitaram à volta deste espasmo “de vida”.


A análise dos seus misteriosos meandros mostra-nos que a diversidade é grande.

Para algumas mulheres ele é imprescindível e o principal objetivo da atividade sexual, outras conseguem saborear o prazer sexual, mesmo quando o orgasmo não surge, sem o sabor amargo da falta no fim.

A subjetividade da experiência orgástica é de tal ordem, que algumas mulheres não têm a certeza se tiveram ou não orgasmo.

Para muitas o orgasmo teve de ser conquistado a pulso.

Foi uma descoberta, nem sempre fácil ou imune a culpabilidades, numa relação, mais ou menos, tensa com o corpo e a cultura.



A velha discussão entre orgasmo vaginal e orgasmo clitoridiano


Freud – a quem todos muito devemos, seja no que diz respeito à compreensão do funcionamento mental, seja no que toca à sexualidade –, deu, neste caso, um importante contributo para a confusão.

O paradigma psicanalítico da altura (há muito abandonado) dizia que a mulher que apenas atingia o orgasmo através da estimulação clitoridiana seria imatura e neurótica. Aquela que conseguia obter orgasmo vaginal seria madura e saudável.

De acordo com este paradigma, todas as mulheres saudáveis teriam que fazer uma transição do orgasmo clitoridiano para o vaginal.


É ainda mais interessante se pensarmos que, anos mais tarde, os primeiros sexólogos sabiam que o clítoris era a maior fonte de prazer para a mulher, e, ainda assim, a visão coitocentrista insistia em desviar o foco do conhecimento para a narrativa sociocultural, reforçada pela chancela médico-científica.


Que força era essa que negava, diminuía ou castrava essa parte do corpo da mulher que tem apenas uma função: dar prazer?

A força da inveja? Do machismo? Da visão coitocêntrica? Da culpabilização do prazer? Da visão, estritamente, reprodutora do sexo?


E foram muitos os dados em sentido contrário.

Kinsey, nos anos 50 do século passado, dizia que o orgasmo vaginal era um mito; pouco mais tarde, Masters & Johnson salientavam a importância dos preliminares e do clítoris; Shere Hite, apresentava estudos que afirmavam que, durante a masturbação, 85% das mulheres não se penetravam.


A verdade é que, apesar dos avanços do conhecimento, a cultura dominante foi sempre influenciando “desvios”, “anormalidades” ou tratamentos.

Na época, as dicas que circulavam pelos médicos, tal como as que circulam hoje pelos média, eram uma mistura de preconceito, com ideologia e ciência.


Apesar de o orgasmo feminino ainda estar envolto nalgum mistério, tal como a escondida genitália, podemos afirmar que o clítoris é o principal protagonista, embora muitas mulheres não prescindam da penetração vaginal para obter um orgasmo.



Inibições castradoras


Atualmente, o estado da arte diz-nos que, excluindo condições médicas e medicamentosas, os principais fatores que impedem o orgasmo feminino são: uma estimulação inadequada, o(s) medo(s) e a obsessiva auto-observação.


No que toca à obsessiva auto-observação, em que a pessoa se transforma em espectador de si mesmo – “Será que vai ser agora?”; “Será que é isto?” -, o problema é de sentido contrário ao da queixa: não conseguem “ir-se”.

Isto é, ainda mais, válido para mulheres controladoras.

O funcionamento, consciente ou inconscientemente, híper controlado inibe-lhes o acesso ao bom descontrolo orgástico.


Como se compreende, este “deixar-se ir”, depende tanto de questões individuais – baixa autoestima, relação conflituosa com o prazer, transferências primitivas feitas para a relação atual, trauma, etc. -, como de questões relacionais. Ajuda muito quando confiam no parceiro e nos sentimentos destes por elas; assim como, não haver ressentimentos acumulados.


A perda de controlo é o principal dos medos, mas, associados a este, o medo da avaliação do parceiro, o medo de urinar, o medo da rejeição e o medo do prazer, também por lá aparecem.


A estimulação inadequada é outro fator perturbador do orgasmo.

Esta pode dar-se por ignorância delas, deles ou de ambos.

Ainda hoje se vê sexólogos a pedirem às suas pacientes que, com ajuda de um espelho (ou de um telemóvel), observem a sua vulva e que a explorem.

Ainda hoje ouvimos homens a sentirem-se ameaçados por, durante o coito, elas estimularem o clítoris. “Então o meu pénis não é suficiente?”.


Para complicar ainda mais o cenário, muitas mulheres precisam dos estímulos certos (para cada uma elas!) para fazer disparar o orgasmo.


Penso, sobretudo, nas mulheres que se masturbam e que, conhecendo-se, controlam bem as variáveis que as levam a um orgasmo “a solo”. Acontece que, por vezes, é difícil reproduzir as mesmas nuances na relação a dois e no coito.

A partilha e a transmissão de desejos e necessidades pode evitar frustrações.

Por último, importa que a mente não se foque em fatores distrativos.

Com frequência, surgem relatos de pensamentos intrusivos durante o sexo que impedem a excitação e o orgasmo.

As mulheres distraem-se, sobretudo, com preocupações acerca da autoimagem – gordura, celulite, cicatrizes, etc. -, ou com tarefas – domésticas ou profissionais.

Neste aspeto, eles são “menos complicados”, a principal preocupação distractora é com a sua performance. Muitos destes homens, só relaxam e gozam o jogo sexual depois delas atingirem o orgasmo.


A verdade é que esta preocupação masculina, mesmo que contendo motivações narcísicas, integra e depende do prazer feminino, tantas vezes negado.

É caso para dizer que, a mulher vista, exclusivamente, como objeto de prazer masculino está em vias de extinção.

Hoje, o prazer delas importa!

O abolir de ferozes censuras sociais ao prazer sexual feminino e aos códigos de género - conquista feita a pulso pelas mulheres ao longo de décadas - contribuiu muito para que, atualmente, o sexo seja maior fonte de prazer para elas.

Olhando para trás, parece fácil concluir que quanto maior a desigualdade de género, maior a castração feminina.



Dr. Pedro Fernandes, Psicólogo Clinico e Psicoterapeuta










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