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O Amor Cura, por Carla Bastos




O que é o Amor?


Amor (do latim amore) é difícil de definir, podendo ser designado por uma emoção ou sentimento de afeição ou carinho que leva a pessoa a aproximarem-se, a desejarem o bem, protegerem ou conservarem a pessoa que amam. É um sentimento transversal à experiência de ligação entre as pessoas, fundamental à natureza humana (Greenberg & Paivio, 1997), tendo tanto de experiencial como de inexplicável e pessoal. Por essa mesma razão, a autora Ellen Berscheid (2006) propõe uma classificação de quatro formas de amor que considera inatas no ser humano como forma de viver as relações interpessoais:


O Amor vinculação, a vinculação é um laço afetivo que se estabelece com o outro e ocorre inicialmente na infância (Ainsworth, 1969), gerando o sentimento de amor traduzindo-se na segurança e conforto obtidos com a presença e cuidado que recebemos do outro. As experiências de vinculação precoce desempenham um papel imprescindível no estabelecimento de relações futuras ao longo da vida e na forma como se lida com a aproximação e a perda dos outros.


O Amor romântico implica uma ligação afetiva entre duas pessoas, envolvendo cuidado recíproco e uma importante componente sexual, expresso através da paixão e desejo (Shaver, Morgan & Wu, 1996). Este tipo amor atinge determinados picos de prazer ligados ao desejo, sensualidade e excitação juntamente com algumas sensações de surpresa, insegurança ou medo, estando muitas vezes associadas a ameaças de rutura na relação, o que faz com que o amor seja experienciado de forma muito profunda (Vasco, 1987).


O Amor companheiro podendo também ser definido como amizade ou gostar intenso, constituindo a forma através da qual as relações românticas se iniciam (Berscheid, 2010), sendo inerente o compromisso, a conectividade e apoio entre os parceiros, relacionando-se intimamente com a satisfação conjugal. Existem teorias que apoiam a ideia de que, ao longo do tempo, o amor romântico vai sendo substituído pelo amor companheiro (Berscheid, 2006).


O Amor compaixão associado ao suporte social e ao apoio mútuo em momentos difíceis, sendo também considerado uma forma de amor mais altruísta, promovendo o desenvolvimento de comportamentos que melhoram o bem-estar do outro, sendo percecionados como formas de benefício futuro para quem os promove. Normalmente ocorre em momentos do relacionamento em que um dos elementos passa por períodos menos bons ou difíceis e precisa de maior apoio, suporte e cuidado do outro.


Todas estas formas de amor podem existir em conjunto ou em separado na experiência amorosa ao longo da vida e parecem ter implícitas as necessidades de pertença e aceitação por parte do outro, promovendo afetos positivos. O tipo de amor que se sente pode ter tonalidades diferentes em diferentes etapas da vida, tendo sempre como base a necessidade de ligação afetiva ao outro.


Segundo Sigmund Freud, pai da Psicanálise, precisamos amar para não adoecer. O Amor a que este se refere é o amor-próprio ou por nós mesmos, pela vida, pelo mundo, pelas pessoas. É ter a capacidade de nos encantarmos com as coisas mais simples da vida.


Amor-próprio implica em conhecermo-nos, tolerando as nossas imperfeições e incompletudes que fazem parte da nossa constituição enquanto seres humanos. Implica também reconhecermos que não temos o poder de dominar e nem de controlar os outros e o mundo.

Reconhecer e aceitar quem somos na nossa essência, desperta a tranquilidade interna. Esta é a base do amor-próprio ou por nós mesmo, que permite o encantamento e o amor à vida.


Na psicanálise, o Amor também se pode traduzir pela forma empática, calorosa e plena de escuta ativa como acolhemos quem se dirige a nós e se encontra em sofrimento psíquico, ajudando na sua transformação e crescimento enquanto pessoa.


Existem vários tipos de amor, não existe só o amor-próprio (Philautia), este talvez seja o mais importante mas não é o único, existe também o amor apaixonado e romântico (Eros), o amor lúdico e sedutor (Ludus), o amor familiar incondicional (Storge), o amor na amizade íntima e autêntica (Philia), o amor empático e universal (Ágape) e o amor comprometido e companheiro (Pragma).


O Amor Cura?

Tantas questões se levantam para uma simples questão. A resposta estará sempre intimamente relacionada com toda a nossa vivência, maturidade, forma como encaramos a vida e vemos o mundo. No fundo, somos o somatório de todas as nossas experiências que se reflete na forma como levamos a vida.


O Amor cura? Não, definitivamente o Amor não cura, o Amor pode aliviar a dor, pode torna-la mais suportável, pode ser remédio mas pode também ser a causa, pode ser sintoma, pode dar-nos sentido à vida, pode nos salvar em alturas mais complicadas da vida mas não nos salva da morte.


Podemos morrer de amor? Podemos sim, quando perdemos alguém que amamos muito, como a morte de um filho, uma parte de nós morre também, a melhor parte de nós, é como se vivêssemos mutilados e nunca mais somos os mesmos.

Se amar muito uma pessoa a salva da morte? Não, senão ninguém morria, tornamos a jornada dessa pessoa mais fácil ou suportável e com mais coragem para enfrentar por exemplo uma doença oncológica mas não a salvamos da morte se esse for o seu destino.

O Amor não cura mas a falta dele mata-nos…


Carla Bastos, Psicóloga Clínica


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