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Nikita, um Olhar para Além da Música




O que os Olhos não vêem o Coração sente


Nikita, cantora de música popular portuguesa, esposa , mãe , ficou cega aos 20 anos. Canta desde dos 13 anos. Em 2001 lançou o seu primeiro CD com intitulado "Só Deus".

Nesta entrevista, Nikita abre o seu coração para falar da sua infância, dos seus afetos e das suas vivências enquanto mulher cega numa sociedade que, por vezes, coloca barreiras e tabus aos invisuais.


Quem é a Nikita com mulher?


Sou uma mulher exatamente igual a todas. Choro, rio, vivo todos os momentos com muita intensidade. Tenho os sentimentos a flor da pele, sou muito emotiva. Também sei ser dura com todos os que amo. Sei sonhar mas com os pés na terra, nunca ajo por impulso, simplesmente sou mulher.


Como foi a sua infância? Alguma vez se sentiu discriminada ou inferiorizada em relação ao seu problema?


A minha infância foi boa. Tive momentos felizes outros menos felizes. Sempre fui uma menina que soube sempre o que quis. Tudo o que ambicionava fazia o possível e o impossível para o conseguir. Para mim nunca houve obstáculos, nunca me dei por vencida. Quanto a ser discriminada, Nunca senti isso. Nunca permiti que me fizessem ou dissessem algo que me magoasse. Houve sim alguns episódios que me marcaram profundamente. A minha irmã gémea era cega na totalidade. Era uma criança calma, doce, um pouco desprotegida. Sem querer acabava por deixar que a pisassem. Vi várias vezes baterem-lhe, fazerem-lhe pisaduras negras, e até dirigirem-lhe palavras menos apropriadas. Chamam-lhe agora de bullying, expressão que na altura não se usava. Mas eu, com o meu ar de valente ia sempre em seu auxílio, até porque eu conseguia ver 50% do olho direito que já era muito bom para tomar atitudes. Mas a mim propriamente nunca me descriminaram nem magoaram devido à minha postura um pouco autoritária que era uma defesa para não deixar que nada me fizessem.


Como foi o seu primeiro encontro amoroso?


O meu primeiro encontro amoroso foi um pouco estranho. Por um lado, eu queria namorar, por outro, não me queria entregar a qualquer pessoa de que não gostasse de verdade. Tive um primeiro relacionamento que não durou muito tempo devido à minha falta de entrega. Não estava preparada pois tinha acabado de perder a visão há muito pouco tempo.


O que sentiu?


Como já referi na resposta acima, foi mesmo um pouco estranho. Estava muito apreensiva não conseguia ser eu. Pensava que iria ser algo de muito especial mas nada aconteceu pois de longe O meu primeiro namorado não era o que eu sonhava para mim. Não tinha a minha alma, a minha essência, não tinha a minha luz.


Como conheceu o seu marido?


O meu marido conheci-o no meio artístico.


Como vê o seu marido?


O meu marido é uma pessoa sensível, doce, brincalhão, muito bonita por dentro. Também tem os seus defeitos e não são poucos é claro. Tive a sorte de conhecer o meu marido ainda quando via. Posso dizer que não me agradava nada, exteriormente não me interessou mas éramos grandes amigos. Depois de eu deixar de ver continuamos a conviver até que comecei a conhecer o seu coração a sua luz interior que era muito mais importante que o físico. Depois de um ano e meio casamos.


Alguma vez o seu marido sofreu alguma crítica por estar consigo?


O meu marido é a minha alma gémea por muitas coisas, uma delas é a sua autoridade como pessoa. O meu marido nunca deixou que fizessem qualquer tipo de observação sobre esse aspeto. Assistimos sim a algumas pessoas um pouco inconvenientes que tentaram perguntar ao meu marido se era fácil viver com uma mulher cega. Mas imediatamente ele respondeu: “Cega? Mas a minha esposa não é cega! Cegos São aqueles que não conhecem a minha esposa de verdade!” Também reparamos que existem alguns olhares críticos mas isso nada nos afeta. Sabem porquê? Porque são muito mais as pessoas que nos admiram.


Sente que é uma mulher inferiorizada em relação às outras?


Todos nós temos coisas que gostamos e outras que não gostamos em nós mesmas. Quando deixei de ver tive esse sentimento, pois não tinha encontrado a minha luz a minha essência, mas atualmente percebo que a minha passagem aqui na Terra é para vencer. Fiz questão de aprender tudo o que uma mulher aprende desde nova. Cozinhar, passar, limpar a casa, maquilhar, arranjar o cabelo, ser mãe e muito mais. Só tenho que sentir orgulho de mim mesma, por tudo o que consegui. Mesmo que aos olhos dos outros seja pouco para mim é muito.


O olhar aproxima ou atrai?


Mesmo sem poder ver consigo perceber o olhar. E a resposta é assim o olhar atrai bastante.


Mas será que a visão é fundamental para uma vivência sexual saudável e satisfatória?


Na minha opinião eu acho que o sexo não tem a ver com o facto de ver ou não ver. O sexo é um complemento de uma relação saudável. Para se amar não é preciso olhos para ver. Apenas o toque, a alma, a entrega total.


É preciso ver com os olhos para gostar de alguém?


Na minha opinião como já referi não. O que aconteceu comigo foi totalmente o contrário. Quando via o meu marido não me dizia nada, quando deixei de ver comecei a olha-lo com os olhos do coração que é muito mais importante. Eu sou como aquele ditado que se costuma dizer: quem vê caras não vê corações.


A visão conduz a uma avaliação mais física e superficial do outro?


A visão conduz a uma visão mais física é verdade. Muitas vezes para uma relação a atração física é mais importante, mas acaba por não ser tão duradoura. Porque o que vence é o amor.


Neste sentido a visão leva-nos para uma ilusão e não para a verdadeira essência do outro. Concorda?


É verdade também concordo a visão leva-nos para uma ilusão. O aspeto físico não nos deixa entrar na verdadeira essência.


A sexualidade envolve a exploração dos nossos cinco sentidos. Será que a ausência de um desses sentidos aumenta a sensibilidade dos restantes e de certa maneira, torna o sexo ainda mais envolvente e satisfatório?


Os cinco sentidos são muito importantes, em parte concordo. Por outro lado acho que a falta de um sentido seja ele qual for, torna o sexo especial, único e mais envolvente porque os sentidos que restam ficou muito mais apurados, com muito mais sensibilidade.


Num sentido mais lato, será que a cegueira impede mesmo a pessoa de "ver"?


Se a cegueira impede uma pessoa de ver? Depende do sentido: falando friamente é claro que um cego não vê. Não vê o sol, o mar e tudo que o rodeia. Agora se falarmos noutro sentido, já posso responder de outra forma. Um cego só não vê se não quiser. Agora concordo que passamos a ver de outra forma. Temos que nos capacitar que conseguimos ver através da descrição dos outros e daquilo que nós pudermos assimilar. Mas com a minha experiência posso dizer que existem poucas diferenças em relação a quando via.


Considera que os preconceitos/ tabus na sociedade podem privar os cegos de uma vivência sexual plena e intensa?


Concordo que existem alguns tabus com os cegos a respeito do sexo, principalmente com as pessoas mais antigas, de uma geração anterior a nossa. Mas acabo por perdoar pois talvez o contacto com os invisuais seja pouco para poderem perceber o que realmente é de verdade uma pessoa cega.


Será que as pessoas com cegueira têm uma perceção positiva da sexualidade?


Na minha opinião não é preciso ser cego para se ter perceção positiva ou negativa do sexo. Existem muitas pessoas que veem e têm uma perceção negativa do sexo. Nesse aspeto acho que a falta de visão não é de todo a causa para uma perceção negativa do sexo.


Como é que os invisuais expressam a sua sexualidade?


O sexo para mim é muito importante. Descrevo como algo que completa a minha relação. Sexo para mim é emoção, entrega, algo que não se consegue explicar, apenas sentir.


Como é que enfrenta o preconceito em relação à sua sexualidade?


Não sei como responder a esta pergunta. Pois nunca senti preconceito no aspeto do sexo nem sinto necessidade enfrenta-lo.

Agora posso lhe dizer que faço várias brincadeiras, como eu não vejo sexo tem que ser Fifty Fifty, às escuras!


Que mensagem quer deixar a mulheres e pessoas na sua situação?


A mensagem que eu quero deixar é muito simples: todas as mulheres que estão na minha situação tem que perceber que a cegueira não é um impedimento para a felicidade. Uma mulher cega também pode ser linda. Pode se arranjar, maquilhar, dançar, cantar, sorrir, tantas coisas que podemos fazer, tantos sonhos que podemos fazer. Nunca tenhas medo de errar, de cair, sofrer por amor: porque não és a única acredita em ti e nas tuas potencialidades, pois se acreditares todos irão olhar pra ti como uma mulher vencedora. Nunca te aproveites da tua cegueira para conseguires as coisas, pois irás ser vista como uma coitadinha. Olha para dentro de ti mesma e vais perceber que tudo que ambicionas irás conseguir com o teu mérito próprio. Nunca deixas que façam por ti aquilo que tu consegues fazer. Tudo o que eu quero para mim quero para todos vocês. Assim eu me defino. Beijos da vossa Nikita.



Nikita, cantora de música popular portuguesa



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