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Jóia da Rotina, por Filipe Sambado


Filipe Sambado, lisboeta, progenitora, cantautora e produtora portuguesa. Estudou Teatro e Dramaturgia na Escola Superior de Teatro e Cinema e Técnicas de Som na Restart, em Lisboa, onde acaba por ficar a viver. É co-fundadora da produtora e agência musical de nome Maternidade.

Atreve-se a fazer canções pop imediatas que nos fazem cantar e refletir sobre o mundo que nos rodeia e afeta. Compõe canções notáveis que partem de uma matriz indie pop e consolidam um universo sónico que tanto estabelece cumplicidades com a música portuguesa, em que nos interpelam, convocam a memória e projetam num exercício de reconfiguração da identidade portuguesa atual.

Assume-se como uma pessoa bastante tímida e muito romântica, mas ao mesmo tempo é extrovertida e muito latente ao tema “contato”.

Em 2020 estreou-se no Festival RTP da Canção, como compositora e intérprete do tema Gerbera Amarela do Sul. Participou na primeira semifinal, tendo sido apurada como finalista da edição.

Nesta entrevista ao Love with Pepper, abre o seu coração, mostra a sua relação com a música e fala-nos no maior desafio da sua vida, a constituição da sua família e o seu crescimento pessoal enquanto pessoa.


O que é o amor?

É um sentimento que muitas vezes se confunde com a sua própria descrição da palavra e que acaba por ser uma construção.


Para si o que é uma pessoa não binária?

Uma pessoa não binária é uma pessoa que não se identifica nem com o género feminino nem masculino, identifica-se com um género neutro.



Como gosta que a trate?

Na minha comunicação escrita uso o neutro. Quando estou com pessoas que me são próximas gosto que se esforcem para me tratarem pelo neutro, mas também não me vou aborrecer, nem a minha a felicidade gira em volta disso.

No entanto, gosto muito do feminino e uso o feminino.


Como surgiu a paixão pela música?

Demorei algum tempo a perceber a minha ligação com a música, porque não tinha qualquer formação. Sinto que o tempo desaparece tal é o prazer que tenho ao compor. É algo que não consigo descrever.



O fato de ser género não-binário influência a forma como exprime a sua produção artística, nomeadamente a música, as letras e os aspetos cénicos dos seus concertos?

Sempre esteve presente, ainda antes de eu sentir a necessidade de eu ter esta afirmação, isto já vinha a acontecer, na forma como eu me apresentava, como tocava, ou até mesmo na diferença das minhas criações e da minha música. Acho que foi daí a busca da minha própria identidade.


O facto de ser um não binário sofre o preconceito na sua atividade profissional?

Em termos de carreira nunca sofri qualquer tipo de descriminação, porque também é tudo muito recente.


Como é para uma pessoa não binaria constituir família?

É tudo normal, desde que o parceiro(a) se sinta bem com isso e que exista amor! (risos)


Como se identifica dentro da sua binaridade (género fluido, agenero, neutrois, poligenero, demigenero …)?

Identifico-me com o género fluido, que são pessoas cujas identidades de gênero passam por mudanças de tempos em tempos.


Qual a sua orientação sexual?

Ao longo da minha vida, as minhas relações têm sido maioritariamente com pessoas com características femininas, com características cis. Isto enquanto não me afirmava como pessoa não binária. Sendo género não fluído e sentindo-me neste momento como mulher, estando eu com uma mulher, na verdade pela primeira vez estou a ter uma relação homossexual.



É fácil encontrar o amor e ter relações sendo não binário?

Claro que sim. No entanto, tenho estado com pessoas que têm uma mente aberta e que compreendem e estão por dentro deste assunto ainda tão tabu, o não binarismo. Tenho tido a sorte de ao longo da minha vida ter tido boas relações, que acabaram por si, que não estavam a funcionar, mas que o processo aconteceu de uma forma saudável, mesmo antes de ter esta afirmação.


Sabendo que o Filipe tem um relacionamento e desse relacionamento, nasceu uma menina Celeste, como nasceu este amor tão especial? E como é cultivar este amor tão mágico e especial?

Estou com a Cecília quase há 6 anos e só me afirmei há um ano meio. Ela é uma pessoa muito carinhosa, educada e regrada. Ela veio muito bem preparada para fazer frente às minhas fragilidades que se alojavam na minha mente. Ajudou-me a fortalecer e a criar os meus próprios alicerces. Tenho muita sorte de a ter ao meu lado.



Como é a aceitação da família, amigos e a nível profissional?

Tem sido um processo lento na medida em que não tornei nada oficial em relação à minha afirmação. Não é fácil puxar o assunto e introduzir a novidade. Na verdade, sinto que nada mudou em mim, o que mudou foi na forma como me identifico.


Quando se entendeu enquanto pessoa não binária?

Foi quando me apercebi que não me identificava com características femininas nem masculinas. A partir do momento que sentes que a tua identidade faz com que sintas tudo aquilo que fazes, demasiadamente livre de vontades que surge em ti de te libertares deste tipo de catalogações, isso é o não binarismo e foi desde aí que me entendi como pessoa não binaria.



Alguma vez procurou ajuda terapêutica para tentar entender esta sua nova afirmação como pessoa não binária?

Não precisei para perceber esta nova afirmação em mim.


Como é para si a linguagem ou as novas técnicas de linguísticas para o seu dia a dia?

A língua portuguesa é muito complexa, embora o contraste com o inglês facilite muito nestes aspetos, porque o pronome pessoal faz muitas vezes o neutro e fica muito bem. Existe uma dificuldade em Portugal, devida à nossa linguagem e espero que as próximas gerações trabalhem para que surja uma linguagem mais evoluída, entendida e que com o tempo se adapte aos géneros não binários.


Como é a sua experiência como pessoa não binária no nosso contexto (Portugal)?

Ainda existe muito preconceito, sendo este muito constante.


E a sua visibilidade? Tem representatividade (de outras pessoas não binárias)? E os media?

Como é recente a minha afirmação em relação à identidade de género normalmente só dou entrevistas em relação ao meu trabalho. Os media portugueses ainda não estão preparados para este tipo de assunto e têm que desenvolver ferramentas para conseguirem comunicar sobre esta tema. Em parte, isto deve-se à língua portuguesa, de não ter assumido estas alterações gramaticais, o que dificulta a nossa própria escrita, porque os editoriais obrigam que se escreva em função de um acordo ortográfico e esta nova norma não está dentro do acordo, portanto ainda existe uma certa distância entre aquilo que nós queremos e o que a imprensa tenta fazer. Existem alguns países como a Suécia, Estados Unidos da América, entre outros, que assumiram esta nova questão gramatical tornando tudo mais fácil.


O que acha que devia ser feito a nível legal e de políticas públicas?

Em termos políticos era neutralizar a diferença que existe entre o género e também a diferença que existe entre este género neutro. Outro dos fatores é educar as nossas crianças enquanto futuros homens e mulheres e dar-lhes o espaço para elas poderem vir a ser o que quiserem.


O amor vence o preconceito?

Estou certa que sim, mas é um sentimento que ainda está muito latente e temos que lutar muito contra o preconceito, para sermos pessoas melhores e tornar o mundo melhor.


Filipe Sambado, Cantautora e Produtora Portuguesa

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