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Irmã Cândida Santos, a entrega e o Amor a Deus e aos Outros




Cândida Santos, 46 anos, licencianda em ensino, aos 30 anos sentiu o chamamento a Deus, dedicando a sua vida a Deus e aos outros.

Uma mulher dócil, meiga, bondosa, de uma generosidade imensa e com um coração do tamanho do mundo em que a missão é ajudar e cuidar dos que mais precisam e necessitam.

Numa missão a Moçambique, numa missão missionaria, em férias escolares, sentiu o click, o tal chamamento de Deus para juntos ajudarem os que mais precisam.

Integra na Congregação das Irmãs Reparadoras da Nossa Senhora de Fátima.

Neste momento é diretora técnica de um lar de crianças e jovens em risco, no qual trabalha.

Assim sendo, nesta entrevista fala-nos dos amores, desamores, na entrega a Deus e aos outros e também sobre a sua opinião enquanto Mulher perante assuntos relacionados com a Igreja e a sexualidade, que nos dias de hoje ainda são um tabu, onde nos fala de forma aberta.


Quando é que sentiu o chamamento?


O chamamento de Deus, foi algo que comecei a pensar e a questionar desde há muito tempo, mas a decisão foi quando decidi fazer uma missão a Moçambique aos 30 anos de idade.

Não foi uma decisão fácil, pois estava a trabalhar como professora numa escola, tinha o meu salário e optei por esta vida, e já lá vão 15 anos, escolhi uma vida na qual sou muito feliz.

Entrei na Congregação em 2006, fiz a minha primeira profissão religiosa em 2009, e a minha profissão perpétua em 2015 na minha terra Natal.

Alguma vez sentiu algo de que fosse o chamamento na infância, adolescência?


Sim, cheguei a questionar essa possibilidade na adolescência, mas depois foi passando.

Conforme a idade vai aumentando, mais difícil é tomar opções de vida, porque já medimos muitos prós e contras, e o facto de não ter tomado esta decisão mais cedo, prendeu-se com o facto de tentar efetivar na escola. Cheguei a uma altura em que não consegui efetivar e então decidi entrar na Congregação.


Como reagiu a sua família a esta decisão da sua vida?


No início reagiu muito mal, não queriam muito este tipo de vida para mim, principalmente da parte da minha mãe.

Mas com o tempo, aceitaram e está tudo bem.

Antes de seguir esta vocação, sentiu-se alguma vez apaixonada?


Claro que sim, isso faz parte da natureza humana, em todas as adolescentes existe o desejo de constituir família.

E do desejo de ter filhos?


Sim, o desejo de ser mãe faz parte de nós mulheres, o desejo da maternidade permanece, se assim não fosse era impossível estar a fazer o trabalho que faço.


Teve alguma relação amorosa?


Sim, cheguei a ter um namorado.


Sentiu desejo sexual?


Sim, o desejo sexual faz parte do ser humano.

Como é viver o amor na clausura?


O amor é um sentimento que nós vivemos na doação ao outro, no estar ao serviço do outro, é nesse sentido que vivemos o amor. No outro nós vemos um Cristo, o qual tentamos ajudar para que se consiga superar as dificuldades da vida e ser feliz.





Alguma vez pensou em seguir a vocação nas Irmãs Carmelitas?


Não, eu não sinto vocação para isso. Sinto que a minha vocação é para caminhar ao lado dos outros, para ajudar os outros, esta é a razão da minha opção de vida.

E lidar com a ausência da sexualidade, sendo uma necessidade fisiológica?


Eu não vivo com a ausência da sexualidade, o amor, a doação ao outro é a forma de eu viver a minha sexualidade de uma forma feliz.

Como é o não cair e lidar com a tentação?


O viver numa Congregação, numa comunidade religiosa é uma mais valia. Sentimos que não estamos sós, caminhamos juntas e temos abertura para falar das nossas dificuldades a todos os níveis.

Também a nossa vida de oração, de intimidade com Jesus Cristo, a quem oferecemos a nossa vida, ajuda-nos a superar as dificuldades do nosso dia a dia. Jesus Cristo é o nosso grande amor.


Sentiu alguma vez vontade de desistir desta vocação?


Até ao momento vontade de desistir não. No entanto tenho consciência que existem dificuldades, como em todas as vocações.

É importante ter a capacidade de dialogar com os outros, de perceber que por vezes as nossas inquietações, as nossas dúvidas, as nossas incertezas, são também as dos outros. É importante percebemos de onde elas vêm, por isso tenho que fazer um trabalho diário de me questionar sobre o que fiz e se o trabalho que fiz pode ou tem que ser o melhor.

É este trabalho diário que me ajuda a querer em cada dia ser melhor.

De que forma acha que a Igreja tem evoluído em assuntos relacionados com a sexualidade? Concorda?


No meu ver, o que a Igreja e o Papa Francisco têm feito é um excelente trabalho para que haja um maior respeito pelo outro, de aceitação do outro tal como ele é.

Considero que o Papa está a fazer bem este trabalho e o que a Igreja e a sociedade têm que fazer é respeitar o outro tal como é, e acolhê-lo independentemente da raça, orientação sexual, do que seja.


O que acha sobre o casamento gay e adoção?


Sinceramente, não tenho que concordar ou não concordar, apenas tenho que respeitar o outro, ainda que pense diferente de mim.

No meu trabalho lido com crianças que têm falta de amor, de carinho e por essa razão, desculpando a expressão, quem aparecer serve, seja homem ou mulher e temos que estar atentas a este tipo de situação, porque por vezes estas situações surgem como um chamar de atenção. Temos que as amar e dessa forma as ensinamos a perceber e a compreender o que é o amor, para que de forma consciente vão descobrindo o seu caminho.

Quanto à adoção gay, confesso que me faz alguma confusão. Considero e defendo que uma criança para ter um crescimento saudável precisa de ter presente na sua vida a figura masculina e feminina, seguindo a ordem natural da natureza humana.

A mulher nos dias de hoje não vai pura (virgem) para o casamento, concorda com isso?


Não me compete a mim concordar ou não concordar. Cada pessoa sabe de si e o valor que dá ou não a esse facto. Cada mulher deve agir conforme a sua consciência.

Nos dias de hoje muitas das mulheres e homens que seguem vida religiosa já fizeram várias experiências de namoro, pois cada vez tomam opções vocacionais mais tarde. No entanto, o ser virgem, não me parece problema relevante, para entrar na vida religiosa, importante é que a pessoa viva a sua castidade a partir do momento que faz a sua opção, isso é que é importante.

Antigamente existia muita violência doméstica com as mulheres no casamento, em que estas tinham que levar o casamento até ao fim.

Nos dias de hoje isso já não acontece com tanta frequência.

No seu ver concorda com este tipo de divorcio?


Na minha opinião quando alguém toma uma opção na vida, deve tomá-la para o resto da sua vida, no entanto, por vezes existem muitas circunstâncias em que a mulher não é respeitada, é escrava de algumas situações e por vezes até mesmo subjugada, não tolero isso.

No entanto, parece-me que nos nossos dias passamos do oito para o oitenta, ou seja, os casais divorciam-se por tudo e nada, não existe tolerância, respeito entre homem e mulher e vice-versa.

O que penso em relação a este assunto é que também vai do espírito de cada um e também não existe aceitação do outro, do querer do outro, portanto acho que muitos dos divórcios que existem nos dias de hoje são por puro egoísmo.

Na vida diária de cada pessoa tem de haver cedências de parte a parte, no meu entender muitas vezes o casamento não funciona porque não há cedência de parte a parte, falta o espírito de sacrifício, de ajuda de complementaridade. Isto tem de existir em todas as vocações, também na minha.

O aborto, acha que um dia a Igreja irá aceitar?


Não, e muito sinceramente eu também não aceito. A Igreja nunca poderá aceitar algo que é contra a vida.

Nenhuma mulher é obrigada a ter filhos. Existem muitas formas de os evitar não é necessário tirar a vida, matar um ser indefeso.


E o uso do preservativo concorda?


Essa decisão não me diz respeito a mim, quem tem de decidir é o casal. Eu respeito a decisão do outro, a única que não posso respeitar é o matar, defendo que ninguém tem o direito de tirar a vida a outro, se assim for onde está o respeito pela liberdade?


O que sente quando falam dos escândalos sexuais da Igreja, concorda com a castração química?


O que penso sobre isto é que são monstruosidades, lamento que isso aconteça quer na Igreja, quer fora da Igreja. Quem o faz tem que pagar pelos atos que fazem.

Tenho pena, sobretudo das crianças, que ficam com sequelas para o resto da vida.

A Igreja tem evoluído e defende que a pessoa que os pratica tem que ser julgada e penalizada.

O Direito Canónico da Igreja vai ser reformulado, precisamente sobre as consequências e penas que os pedófilos irão ter.

Nos tempos de hoje, sabemos que na lei civil o crime de pedofilia ao final de uns anos é prescrito, como outros crimes, mas canonicamente um crime deste tipo nunca prescreve, quem o pratica é sempre jugado e castigado.

Quanto à castração química, não sei sinceramente o que dizer, não li muito sobre o assunto e por isso não me vou pronunciar sobre o assunto.


Qual a sua opinião dos Padres constituírem família em outras religiões é permitido e na nossa não. É a favor dos Padres católicos constituírem família?


No meu entender qualquer ser humano pode casar ou não casar, a opção faz parte da pessoa em si mesma.

Eu poderia ter optado por casar, mas optei pela vida religiosa, automaticamente deixei de ter a opção de casar, portanto considero que não podemos ver a castidade, o não casamento como algo que é imposto, mas sim como uma consequência da opção de vida da pessoa.

Julgo que se um sacerdote fosse casado a disponibilidade para estar ao serviço da paróquia e dos outros seria muito menor, pessoalmente julgo que isso iria fazer crescer a taxa de divórcios porque a pessoa não teria tempo para a família, para as questões familiares.


Concorda com a ordenação feminina na Igreja católica?


Refere-se ao sacramento da ordem nas mulheres, esse assunto não me preocupa nada, porque a mulher já faz tanto na Igreja.

O que a mulher não pode fazer é confessar e celebrar a Eucaristia em relação ao sacerdote.

Como vê na religião católica o voto de castidade da Mulher (freira) e do Homem não, acha justo, perante Deus?


Não é a religião católica, é a pessoa que toma a opção de vida consagrada, seja homem ou mulher, que faz os 3 votos: pobreza, castidade, obediência.

Quando se fala em vida consagrada e em votos, estamos a falar das Congregações Religiosas sejam masculinas ou femininas, os padres jesuítas, dominicanos, salesianos, ou outros, além de serem sacerdotes também fazem os votos como eu e como qualquer consagrado.

Um sacerdote diocesano (os que exercem a função nas freguesias) é diferente, mas os que pertencem a Congregações Religiosas, têm que fazer os votos e viverem uma vida comunitária.

Dizer que as Irmãs não podem ter nada não é verdade, e depende das leis de cada uma das Congregações. A Congregação a que eu pertenço, permite-me receber, por exemplo, uma herança, não me é permitido ter algum negócio, o que faz todo o sentido.

Costumo dizer muitas vezes faço voto de pobreza, não faço votos de miséria, procuro viver a minha vida ao jeito de Jesus, que também viveu pobre.

Sendo diretora técnica desta Instituição, tenho um ordenado, tenho cartão multibanco eu lido com dinheiro, o salário que recebo vai para aminha Congregação, ou seja, nós funcionámos como um bolo comum, portanto o que a comunidade precisar de comprar compra-se, o que sobrar enviamos para a nossa casa comum em Fátima, onde fazem a sua gestão do dinheiro.

Portanto nós ao fazermos o voto de pobreza é a mesma coisa que dizer que vivemos com o indispensável, e isso os padres diocesanos não o fazem, têm o salário deles e fazem o que bem entender.

Com 46 anos como define o seu percurso de vida?


O meu percurso de vida é como o de uma pessoa normal, é feito de momentos bons e momentos bons, mas tenho um percurso feliz.

Neste momento sou feliz, porque estou no local certo, e se me perguntarem se é isto que quero para a minha vida, sem dúvida alguma respondo que sim!

Considero-me uma mulher cautelosa, hoje penso assim, mas não estou livre de amanhã pensar diferente, espero bem que não.

Espero que este seja o meu caminho até ao fim e com a graça de Deus, espero conseguir!

Que conselhos tem a dar a nossa juventude e sociedade em geral?


Lamento e tenho pena que a nossa sociedade não viva os valores humanos.

Considero que a sociedade está cada vez mais egoísta, consumista e esquecemo-nos de olhar para o outro e sinto pena por isso.

Acho que o ser humano é uma riqueza, hoje estamos numa sociedade em que invertemos os papeis, parece que o animal vale mais do que o ser humano, tenho pena por isto, porque no meu ver a família é uma riqueza que temos e devemos cuidar, tratar, preservar e ajudar mesmo não sendo família, devemos estar ao serviço uns dos outros.

O meu lema é “não quero que me façam mais do que aquilo que eu faço ao outro” e considero que este deve ser o lema da nossa vida e temos que cultivar em nós o dom de perdoar.


O amor cura tudo?


Falar de paixão e de amor é falar de coisas diferentes e na nossa sociedade acho que estes dois conceitos não estão bem percebidos. Se falarmos de paixão, falamos de algo que pode desaparecer. Mas se falamos do amor falamos de algo que cura e cresce à medida que se oferece!

Por vezes, dizem, acabou o amor, eu não consigo entender assim, se é amor não desaparece, cresce e quanto maior é a minha relação com a pessoa mais cresce o amor entre nós.

Termino com as palavras do fundador da minha Congregação o Padre Formigão dizia: amar o próximo é pôr á sua disposição tudo o que sou e possuo, é isto que tento fazer dia a dia da minha vida.


Irmã Cândida Santos, Diretora do Lar Rosa Santos


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