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INFERTILIDADE, UMA DOENÇA DOS TEMPOS MODERNOS


 

 4  de junho 2024, Dia Mundial da Consciencialização da Infertilidade

 

DEFINIÇÃO:

 A infertilidade consiste na ausência de uma gravidez viável após um ano de relações sexuais regulares, sem uso de contraceção. É uma doença reconhecida pela OMS e cuja prevalência ronda os 15% dos casais.


CAUSAS:

 As principais causas da infertilidade podem esquematizar-se em dois grandes grupos: femininas e masculinas. Temos vindo a observar um aumento da prevalência de casos de infertilidade masculina, que atualmente estão presentes em quase 50% dos casos. Devem-se sobretudo a problemas na produção de espermatozoides, quer em número, quer em qualidade funcional. No caso da mulher, o fator idade é porventura o mais importante. Não sendo uma doença, a idade mais avançada da mulher (sobretudo após os 35 anos), é seguramente responsável por muitos casos de infertilidade, uma vez que afeta diretamente a quantidade e a qualidade dos óvulos de que dispõe. Quando falamos de doenças que afetam a fertilidade feminina, as mais comuns são as alterações da ovulação, as doenças que afetam o útero e as trompas uterinas e a endometriose.

Os desafios diagnósticos são grandes porque muitas causas ocorrem ao nível celular e molecular e não têm tradução nos resultados dos exames que fazemos para estudar a infertilidade. É por essa razão que em cerca de 10 a 15% dos casais não encontramos uma razão para o problema. Por outro lado, um diagnóstico tardio tem consequências óbvias para o prognóstico futuro, uma vez que o início dos tratamentos vai acontecer em idades onde a eficácia já é menor. Para além disso, não podemos esquecer o sofrimento prolongado, que leva a que, em muitos casos, os casais cheguem a essa fase de inícios dos tratamentos já muito degastados. A estratégia deve ser sensibilizar os profissionais de saúde e os próprios utentes para esta condição, e alertá-los para a necessidade de uma intervenção diagnóstica e terapêutica realizada no mais curto espaço de tempo possível.

 

TRATAMENTOS:

A  mulher é, quase sempre, a chave do sucesso de um tratamento de fertilidade, uma vez que o ovócito, em termos reprodutivos é mais importante do que o espermatozoide. É por essa razão que se fala tanto na mulher quando há uma situação de infertilidade.

Existem dois tipos de abordagem terapêutica: cirúrgica e médica. A cirúrgica aplica-se no caso de problemas vasculares do testículo ou de certas doenças do útero (pólipos, miomas), das trompas uterinas ou de alguns quistos ováricos. No entanto, a abordagem médica é a mais comum e genericamente podemos dividi-la em dois grupos. Os chamados tratamento de primeira linha, que consistem fundamentalmente em otimizar o processo de fecundação natural. Refiro-me às induções da ovulação e à inseminação intra-uterina (IIU). O outro grupo de tratamentos, ditos de 2ª linha, é constituído por um conjunto de procedimentos que designamos por técnicas de procriação medicamente assistida (PMA). São tratamentos mais complexos, que envolvem uma componente laboratorial mais importante e em que a fecundação é levada a cabo no laboratório. Os mais comuns são a Fertilização in Vitro (FIV), a Microinjeção Intracitoplasmática de Espermatozoides (ICSI), a Transferência de Embriões Criopreservados (TEC) e os Testes Genéticos Pré-implantação (PGT).

As taxas de sucesso destes diferentes tipos de tratamentos variam com cada deles e com a idade dos pacientes, sobretudo da mulher. No caso da IIU podemos apontar para uma probabilidade de gravidez a rondar os 10 a 15% por cada tratamento. No entanto, com as técnicas de FIV e ICSI estes números podem chegar a valores de 50%, sobretudo nos casais em que as mulheres tenham menos de 35 anos de idade. Se falarmos em tratamentos realizados com ovócitos doados a taxa de sucesso pode rondar os 60%.

 

CONGELAÇÃO DE OVÓCITOS:

 Uma nota final para uma prática cada vez mais comum, também em Portugal que é a congelação de ovócitos. Há dois tipos de indicação para a sua realização. Quando existe a necessidade de efetuar algum tratamento médicos ou cirúrgico que ponha em risco a integridade do ovário ou o património de óvulos. Neste caso a congelação de óvulos é dita de “causa médica”. Nos casos em que a mulher pretende preservar o seu potencial reprodutivo, porque, por exemplo, apesar de uma idade já mais avançada não tem um companheiro para engravidar, mas quer fazê-lo mais tarde, é considerada uma congelação não-médica ou “social”. A idade ideal para a sua realização é difícil de definir, uma vez que, se o fizer muito cedo, poderá nunca necessitar de usar esses óvulos porque acabará por engravidar de forma natural. Por outro lado, depois dos 40 anos os resultados são muito maus. Acredita-se que o ideal será fazê-lo entre os 32 e os 35 anos. No entanto, o ideal é mesmo não adiar excessivamente o projeto para uma gravidez natural.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS:

 Uma nota final para a acessibilidade dos casais aos tratamentos de PMA. Portugal sofre de um problema crónico nessa acessibilidade, fundamentalmente por duas razões. No setor público os hospitais tem lista de espera que, em alguns tratamentos, podem chegar aos três anos, o que condiciona de forma muito significativa o acesso aos tratamentos. Por outro lado, o elevado custo no setor privado, leva a que muitos casais não tenham condições financeiras para essa opção alternativa ao setor público.

Se tivermos em linha de conta os valores preocupantemente baixos da natalidade no nosso país, e sabendo que os tratamentos de PMA tem um impacto direto nessa natalidade, uma vez que atualmente já contribuem com cerca de 4% para o total de nascimentos anuais, compreende-se a importância desta questão da acessibilidade, não apenas numa lógica do paciente, mas também como um problema do próprio país.

 

Prof. Dr. Pedro Xavier, Presidente da Sociedade Portuguesa Medicina da Reprodução Médico Especialista em Ginecologia, Obstetrícia e Medicina   da        Reprodução na Porto Clínica

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