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Igreja, Exorcismo e a Sexualidade, por Dom Abade André




 Dom Abade André, ou civilmente Humberto Rolo. Nascido na cidade do Barreiro (Distrito de Setúbal), em 1979, atualmente com 44 anos. Oriundo de uma família da classe trabalhadora e humilde, completou os estudos básicos e preparatórios no Barreiro, e os estudos secundários em Setúbal e no Barreiro.


De família de fé e tradição Católica Romana, não muito praticante, Dom Abade André acaba, no início da juventude, aos 12 anos, por pedir o Batismo e começa a sua formação religiosa. Não era jovem de pensar no sacerdócio como futuro caminho de vida, porque influenciado pela história familiar, ligada à construção civil, desejava seguir a carreira de arquiteto.


Foi somente pelos seus 15 anos que começou a ponderar verdadeiramente sobre a vocação religiosa, integrando o Pré-seminário Diocesano Católico Romano da Diocese Católica de Setúbal.


Aos 18 anos entra no Seminário Menor da Congregação Católica dos Filhos da Caridade (Padres Operários), seguindo-se dois anos depois uma experiência vocacional em Postulantado com a Ordem dos Frades Pregadores (Dominicanos) em Lisboa.

Não contente com o ambiente religioso liberal e modernista que encontrou na Igreja Católica Romana, em 2002, com 23 anos, descobre a Fé Católica Ortodoxa, a qual virá a abraçar definitivamente.


É na Igreja Ortodoxa que concluiu a sua formação Teológica, sendo ordenado ao sacerdócio em 2005. Nos últimos meses antes da sua ordenação, foi escolhido, junto com outros dois colegas de curso, para realizar a formação para o ministério de exorcista.


No período de 2007/08 funda em Coimbra o Priorado de São Jorge, em vista à estabilização de um Mosteiro para a Ordem de São Basílio Magno, da qual já era monge desde 2003. É em Coimbra, propriamente na localidade de São Frutuoso (Ceira), que o seu ministério como exorcista se expande e se torna conhecido, com várias participações em programas de Televisão, entrevistas em Jornais e Rádio.


Em 2011, a comunidade presidida pelo então Prior Humberto Rolo, é recebida canonicamente na Igreja Católica Ortodoxa Hispânica, após reforma religiosa das comunidades Católicas Ortodoxas em Portugal. Neste ano, o Prior Humberto Rolo, professa os votos solenes monásticos, tendo, segundo a tradição antiga da Igreja de renunciar ao nome civil, o nome do Apóstolo Santo André. Neste ano de 2011, é confirmado publicamente como Exorcista permanente da Arquidiocese Primacial Católica Ortodoxa de Lisboa.


Em 2018, é eleito pela comunidade para Abade da Ordem Basiliana em Portugal, tornando-se assim o Dom Abade André. Por motivo da Pandemia Covid-19, a sua bênção abacial teve de ser atrasada, vindo a ser solenemente abençoado a Abade Mitrado em 2023.


A situação da Pandemia criou toda uma série de graves complicações à comunidade da Igreja Católica Ortodoxa, com o falecimento de vários membros, o que implicou uma reorganização interna, tendo de encerrar o Mosteiro de Coimbra e a Paróquia de Aveiro. Recebeu ordem para se estabelecer na região de Lisboa, para assistir a Arquidiocese, o que se mantém até à atualidade. Pelos seus cargos administrativos na Arquidiocese, de Chanceler e Responsável da Formação Teológica, não tem comunidade atribuída, de forma a poder realizar também as constantes e exigentes deslocações em representação da Igreja, aos fiéis que pedem assistência e auxílio religioso por todo o Portugal.


Nesta entrevista ao Love with Pepper, Dom Abade André esclarece as dúvidas e tenta desmitificar tabus e preconceitos no que diz respeito à Ortodoxia, Exorcismo e Sexualidade.

 

O que é a Igreja Ortodoxa?

A Igreja Ortodoxa é Católica tal como a Igreja Romana, têm ambas a mesma fundação através dos Apóstolos de Nosso Senhor Jesus Cristo. Assim, não é de estranhar que muitas coisas são idênticas e comuns a estas duas Igrejas, a começar pela Fé, pela Doutrina e práticas religiosas, ou seja os Sacramentos.

A Igreja Católica teve uma vida comum por perto de mil anos, havendo, contudo, alguns momentos históricos onde houve desavenças devido ao pensamento doutrinal das comunidades locais, que se estendiam por todo o território do antigo Império Romano.

Estas desavenças deram origem ao chamado “Grande Cisma” do ano de 1054, onde a unidade Católica foi partida em dois grupos gerais. O grupo ocidental europeu, sob autoridade do Bispo de Roma, Patriarca do Ocidente, dá então origem ao que hoje se designa Igreja Católica Romana; o grupo oriental e africano, composto dos Patriarcas de Constantinopla (Istambul – Turquia), de Antioquia (Síria), Alexandria (Egipto) e Jerusalém (Israel), darão origem ao que hoje se conhece como Igreja Católica Ortodoxa.

Após esta separação do século XI, a Igreja Romana seguiu um caminho independente, mudando e acrescentando doutrinas à sua fé, que são hoje as diferenças para com a Fé Católica Ortodoxa. Ou seja, a Fé que a Igreja Ortodoxa hoje vive e defende, mantém-se inalterada há mil anos, mas foi esta Fé que os Católicos Romanos também praticaram, viveram e defenderam na época. Hoje quando se diz que os Ortodoxos não aceitam determinadas posições defendidas pelos Católicos Romanos, remetesse somente a todas as alterações romanas e não por recusa dos ortodoxos.


Qual é a situação da Igreja Ortodoxa, atualmente, no Mundo?

Hoje a Igreja Ortodoxa, entre as várias igrejas suas representantes, é a segunda maior confissão cristã a nível mundial, havendo hoje em Portugal, além dos cristãos ortodoxos de origem do leste europeu; russos, moldavos, ucranianos, etc.), cristãos ortodoxos portugueses que praticam tanto o cristianismo ortodoxo de rito e expressão oriental, chamado de Bizantino (Constantinopla), como o cristianismo ortodoxo de rito e expressão europeia, os conhecidos “Católicos Ortodoxos” onde os mesmos estão a recuperar as antigas formas rituais e litúrgicas do primeiro milénio cristão, onde a unidade Católica existia. Estes últimos têm tido uma expressão crescente na Europa, e nos EUA, Canadá, América do Sul e até África, pois como cristãos de origem e tradição ocidental europeia, são estranhos às formas, línguas e tradições cristãs do oriente de língua grega, copta, siríaca, aramaica, etc.


Em Portugal, como está representada a Igreja Ortodoxa?

Em Portugal, desde 2004, com a Instituição da Igreja Católica Ortodoxa Hispânica; como Igreja Autónoma e Nacional, reconhecida canonicamente e com verdadeira e indiscutível Sucessão Apostólica pelo Patriarcado Bielorusso Eslavo, que tem representações em vários países europeus, americanos e africanos; os ortodoxos portugueses têm uma igreja que lhes garante a vivência da Fé Ortodoxa segundo o modelo Ibérico, conhecido historicamente como Visigótico, e que dará origem às tradições litúrgicas dos chamados Rito Bracarense (Braga) e Moçarábico (Toledo). Assim, não é de estranhar que muitos cristãos de outras igrejas, encontrem muitas semelhanças na nossa forma de praticar e viver a Fé.


Como é vivida a sexualidade dentro da religião?

A Bíblia desde o seu começo fala de sexo! Segundo o Livro de Génesis, Deus criou homem e mulher, e lhes ordenou que fossem fecundos e se multiplicassem. A ordem sexual da procriação é explícita, e no sentido histórico bíblico é na procriação que quase tudo se resume.

Conceitos de casal monogâmico, de fidelidade, de afirmação do prazer acima da obrigação da procriação, entre outros aspetos, estavam longe de ser consensuais. Temos de recuar a tempos históricos da sociedade humana, a vários milénios, para percebermos que o povo hebreu (judeu) era de origem semítica, tribal, um povo minoritário com uma fé de expressão própria e não “internacional”.

 

Como é que a religião aborda o tema sexualidade dentro da sua doutrina?

Uma leitura atenta do Antigo Testamento Bíblico dá-nos uma visão bastante redutora do sexo, onde existem relatos de casamentos poligâmicos, de incesto, de violação, de rapto e agressão sexual, de prostituição, etc. Todos esses aspetos vividos e controlados por regras muito apertadas contra o adultério, contra a prostituição, contra a homossexualidade ou lesbianismo, dão conta de uma regra prioritária para a sobrevivência dos hebreus (judeus) como uma nação que estava a crescer e a afirmar-se religiosamente e politicamente. 

Concluindo, o sexo, na visão bíblica, mais do que norma de prazer, era uma obrigação social, pelo casamento, pois ser solteiro e celibatário era mal visto, encarado como maldição, e votado à ostracização social; um homem ou mulher que não procriasse era um ser “pecador” e “amaldiçoado” por Deus! Esta obrigação visou dois aspetos práticos: sobrevivência do povo hebreu (judeu) em termos numéricos, e a obrigação social de dar homens para os exércitos reais. Isto compreendesse num tempo onde a mortalidade infantil era muito elevada, as doenças e epidemias constantes, a morte devido a guerras, fome e catástrofes naturais, uma realidade comum. Concluindo, na Bíblia o sexo é encarado pela própria necessidade de sobrevivência, mais do que pelo prazer pessoal.

No Novo Testamento, já com Jesus Cristo, o mesmo defende-se o casamento monogâmico, condenando, entretanto, o divórcio, o adultério e a prostituição. Essa mesma posição é assumida pelos Apóstolos, sobretudo com São Paulo, onde nas suas famosas Cartas abundam referências às práticas da sexualidade, que o mundo de então; Império Romano; vivia, aceitava e praticava. E é esta afirmação de uma certa contenção e moralização da sexualidade, que ainda hoje a Igreja Cristã pratica e aconselha.


Qual o papel do sacerdote e da comunidade ortodoxa durante a cerimónia de casamento?

Na Igreja Ortodoxa, ao contrário da Igreja Romana, é o sacerdote que une o casal em matrimónio. A celebração religiosa do casamento ortodoxo é uma recriação do Casal Primordial, Adão e Eva, onde o sacerdote une o homem (Adão) à mulher (Eva) e os coroa literalmente com coroas, simbolizando a realeza e a grande dignidade diante de Deus, que cada casal assume pelos seus votos de amor e fidelidade.

Durante a celebração, existem bênçãos aos pais dos noivos, recordando que os mesmos assumiram esses votos, numa linha sucessiva de antepassados até ao princípio das origens da Criação, segundo a Bíblia. 

Evidente, que para o novo casal, uma das promessas é assumir a responsabilidade da procriação, aceitando os filhos que Deus lhes conceder; ou seja, a Igreja Ortodoxa condena fortemente o ato do aborto, apesar de estar aberta ao diálogo de algumas possibilidades isoladas em casos de risco de vida da mãe ou do feto, ou de malformação fetal.

As promessas matrimoniais cumprem o dever de se recordar a obrigação do homem e da mulher, de se apoiarem mutuamente em vida comum, renunciando a si mesmos em determinadas situações, para poderem viver numa vida estável, onde além do aspeto financeiro, de saúde, de doença, de pobreza ou riqueza, se recorda o amor que deve haver entre ambos.

A Igreja Ortodoxa ensina que o amor do casal é uma cruz, e não o céu (prazer), pois o prazer, as fascinações, entre outros aspetos também ligados à sexualidade do casal, tendem a entrar com o tempo, numa rotina ou cansaço, e uma relação fundamentada só na ilusão do prazer imediato acaba por se destruir. O segredo está em transformar as “cruzes” da relação em diálogo, em respeito, em cedência mútua, em contribuição para o crescimento comum, em tudo o que alimente a esperança e a chama do casal em querer levar adiante a sua relação.


Como é que a ortodoxia encara a abstinência sexual antes do casamento e a infidelidade dentro do casamento?

O adultério, a bissexualidade (mesmo consentida em casal), a homossexualidade escondida (por um dos membros do casal), a masturbação (de forma egoísta a negar a partilha de si mesmo em casal), etc., sempre foram práticas condenadas pela Igreja, por não respeitarem o princípio da fidelidade do matrimónio, e sobretudo pelo escândalo da mentira dos infratores, que foram pedir a Deus a bênção para uma união que afinal não respeitam, e não fazem esforço de corrigir maus comportamentos, levando inevitavelmente a separações, divórcios, agressões, etc. 


Como é que tradição ortodoxa encara o divórcio e o segundo casamento?

O divórcio é desaconselhado pela Igreja, exceto em casos de agressão (violência doméstica), de mutilação (atos que comprometam a genitália e a normal função reprodutiva dos órgãos sexuais), de adultério (caso público e consentido), de manutenção de vícios (que causem a total instabilidade emocional, a integridade física ou psicológica), da prática da prostituição (masculina ou feminina), etc.

Nestes casos específicos, a Igreja pode “anular” o casamento, e permitir ao homem e mulher “divorciados” que possam vir a constituir uma nova relação e receber a autorização para celebrar um segundo matrimónio religioso, se bem que, na segunda vez, o casal não terá direito a usar da pompa e circunstância da primeira vez, celebrando-se uma cerimónia mais sóbria e simplificada. Se o casamento falhar uma segunda vez… não há mais hipótese de casar na Igreja, exceto que seja viúvo(a), pois os votos de casamento só são vinculativos até “que a morte os separe”.

O divórcio é encarado como uma “traição” ao amor e aos votos assumidos diante de Deus, daí que no contexto religioso não se chama divórcio, mas sim “anulação” do Matrimónio. Isto significa que o casal assume que o que fez diante da Igreja (comunidade cristã) no seu casamento, foi uma mentira e um ato de falsidade, deixando a sua relação ruir por completo. Concluindo, os casamentos que terminam em divórcio sem razão grave aparente, porque o casal simplesmente “se cansou” um do outro, não têm direito à “anulação” do matrimónio pela Igreja, assim como nestes casos é vedado o acesso a segundo casamento religioso.


Quais as regras especificas da religião em relação ao casamento e à intimidade sexual?

Quanto à intimidade sexual do casal, a Igreja nunca teve um livro de regras, se bem que isoladamente pelos séculos, alguns autores cristãos discorreram sobre o assunto, tentando reduzir ao máximo a questão do prazer no sexo; aliás era visto pelos mais acérrimos defensores da castidade e da pureza do corpo, um pecado grave o simples prazer da sexualidade. Logo o conselho era: pouco sexo, pouco toque, ato breve e rápido, simplesmente o necessário ao ato da procriação.

Aos mais imaginativos, e aos mais estudiosos da época pós-romana, idade das trevas, idade média, renascimento, barroco, romântico, etc, até à atualidade, nos rimos que nem a pele devia tocar nua entre casal, pois era visto como sexo bárbaro e incivilizado, daí as longas camisas de noite, com orifícios próprios para as áreas genitais, era o quanto bastava para se estar dentro do socialmente correto e aceite. Quanto a posições, o aconselhado, era a normal posição missionária de papá e mamã, o resto era visto como depravação e altamente censurado.

A Igreja Cristã controlou durante séculos as práticas da sexualidade, ameaçando com excomunhão, inferno, censuras, etc., aos incumpridores. Mas a realidade, é que, apesar das restrições da Igreja, muitas pessoas viveram livremente a sua sexualidade, sobretudo se eram de classe social elevada, onde o poder e a riqueza os defendiam do controle da Igreja.

A Igreja Cristã, devido à grande influência dos movimentos monásticos que começaram a surgir no Egipto desde o século II, viu no celibato e na abstinência sexual uma prática ascética de suma importância. Logo esta corrente espiritual de homens e mulheres solteiros, que renunciavam ao casamento, às relações íntimas humanas e à sexualidade, ganhou popularidade e se estendeu entre as comunidades cristãs de todo o antigo Império Romano e não só. Esta renúncia era vista como um caminho de santidade, e como o maior sacrifício que se podia oferecer a Deus; e a base desta ideia era a de que Jesus tinha sido solteiro por amor ao Reino de Deus, daí não ter constituído família. A própria ideia cristã da mãe de Jesus, Maria, ter sido sempre virgem, também influenciou este movimento cristão. Assim, o ideal de virgindade era tido altamente como uma via virtuosa e bela de dedicação de vida ao propósito da salvação eterna da alma.

Os jovens, homens e mulheres eram modelados neste princípio de honrarem o seu corpo com a virgindade, até fazerem a opção do casamento, ou da vida consagrada a Deus. Logo os atos de autosexualidade, como a masturbação, ou o recurso a estimuladores, etc., era visto como algo antinatural. Ainda hoje, nos meios mais tradicionais cristãos, os jovens são incentivados à virgindade, e a iniciarem a sua vida sexual o mais tarde possível, quando já forem verdadeiramente maduros de corpo e de mente, para compreenderem as ações e consequências das práticas sexuais.


Qual a posição da religião ortodoxa em relação a pessoas da comunidade LGBTQ+ na comunidade religiosa?

É verdade que a Bíblia condena a homossexualidade como pecado, e por consequência todas as práticas que saiam da situação que leva à procriação. Mas temos de fazer compreender aos gays, lésbicas, e demais pessoas com opção e vivência sexual não heterossexual, que esta condenação surgiu de uma atitude prática de sobrevivência de um povo (judeu). Negar que na sociedade hebraica (judaica) não existia homossexualidade, é negar a história real.

Tal como em muitas sociedades modernas que ainda mantêm leis anti-LGBTQ+, o facto de se ser gay ou lésbica, não conta para muito, desde que os mesmos se mantenham “discretos” ou escondidos em casamentos e famílias heterossexuais. Por exemplo na Rússia moderna, em pleno século XXI, os gays e lésbicas continuam a não ter direito à afirmação social pública, mas existem muitos casais LGBTQ+ a viverem em comum e com conhecimento público. Noutros países ainda se criminaliza estes atos com penas de morte, tortura, terapias forçadas, prisão, etc.

É evidente que isso não respeita a dignidade da afirmação da pessoa humana como indivíduo, e quem nasceu ou desenvolveu formas de afetividade, que a tradição judaico-cristã não aceita por causa do comprometimento do papel tradicional de família (homem-mulher-crianças), não deve ser reduzido a um estereótipo folclórico (infelizmente muito usado) de que o gay é um homem efeminado e a lésbica é uma mulher masculinizada.

A Igreja Ortodoxa por muito que não entre em debates inúteis com uma certa realidade extremista dos LGBTQ+, que querem forçar e impor a sua visão de um mundo sexualmente sem barreiras, afirmando-se não-binários, entre outras designações, não fechou portas aos gays e lésbicas, que mesmo sabendo das suas opções sexuais pessoais, continuam a acreditar em Deus, aceitam a Igreja, e têm em vista para seu beneficio espiritual, o mesmo que os heterossexuais crentes ambicionam, a salvação eterna, segundo a promessa de Nosso Senhor Jesus Cristo.

A Igreja Ortodoxa mais que olhar às barreiras de cor, idade, status, língua, cultura, etc., vê em cada homem e mulher, um ser humano, chamado por Deus à Salvação! O papel da Igreja não é servir as ambições humanas, de grupos, grupinhos, partidos, governos, movimentos, etc., mas sim de cuidar da dignidade de todos à sua afirmação, de modo a haver respeito e diálogo de todas as partes, de forma natural e saudável. O sexo não é barreira, não é bandeira, mas sim uma expressão daquilo que cada um mais ambiciona: o amor! Quem não respeita ou vive o amor, tenderá sempre a monopolizar, a criticar, a destruir, a deturpar este sentimento maior que todos nos une, e do qual todos fomos gerados pelos nossos progenitores.

Concluindo, a Igreja vê pecado no sexo, seja ele heterossexual, gay ou lésbico, sempre que não se respeite a dignidade pessoal do seu próprio corpo, ou do corpo da outra pessoa, explorando de forma egoísta e fria, sentimentos e momentos, que deviam ser únicos e especiais, e de forma horrível e degradante, mostramos que usamos uns aos outros como um lixo descartável. Essa sim, é a maior abominação de que Bíblia fala acerca do sexo, a falta de amor e de respeito pelo próximo!

 

E, em Portugal, qual a posição da religião ortodoxa em relação a pessoas da comunidade LGBTQ+?

A Igreja Católica Ortodoxa Hispânica em Portugal, acolhe livremente todas as pessoas, independentemente da sua orientação sexual, não de uma forma dita “inclusiva” e abusiva como alguns desejariam fazer, tornando a igreja uma montra de ideologias ou modas, pois aqui a ideologia é Cristo, a montra é o Altar, a propaganda a Palavra de Deus, e o show os Sacramentos da Igreja. Quem vem à Igreja, à porta do Templo deixa tudo o que é no mundo, para se encontrar com Deus, tal como um doente se apresenta diante de um médico. Quem não entende a Igreja como um refúgio para a alma, um local de conforto espiritual, de certeza de se ser ouvido, amado e estimado, pela comunidade cristã e seus ministros religiosos, melhor nem ir! Deus olha para a alma, não para os rótulos humanos!

É possível uma pessoa LGBTQ+ ser ordenado e exercer o sacerdócio na igreja ortodoxa?

Acerca da possibilidade de a Igreja ordenar aos ministérios clericais da Igreja, homens ou mulheres gays ou lésbicas, já existem Igrejas que o fazem atualmente, sobretudo Protestantes, Evangélicas, etc. Dentro do contexto das Igrejas Católicas, sobretudo Ortodoxa e Romana, continua a ser aconselhado aos formadores religiosos, a evitar-se escolher homens com tendências claramente homossexuais, mas na prática sabe-se muito bem que muitos religiosos, diáconos, sacerdotes e bispos têm tendências ou práticas gays.


Como é que os líderes religiosos lidam com membros da igreja da comunidade LGBTQ+?

 A Igreja Ortodoxa não está de portas fechadas ao diálogo com as pessoas LGBTQ+, mas essas mesmas pessoas, se desejam um diálogo sincero e frutuoso com a Igreja, também não podem impor ou exigir aquilo que Igreja não pode mudar. Todos são bem-vindos à Igreja, mas nem tudo é bem-vindo.


Como é que a religião compreende a dignidade da mulher em relação à sua participação nesta e na comunidade?

Apesar de a história mostrar, em relação à mulher, um papel subserviente ao homem, no contexto da Fé Cristã, temos de elucidar e desmistificar alguns erros bastante comuns.

No contexto bíblico, a mulher é criada a partir da carne do homem, porque o homem pede a Deus uma companheira. Essa criação da mulher, formada da própria carne do homem, recorda ao mesmo que a mulher é igual em dignidade, carne da mesma carne, sangue do mesmo sangue. Esta ideia muito esquecida da criação bíblica, é uma novidade estrondosa, pois a mensagem deste episódio, não dá conta da mulher como um ser inferior, um ser sem direito, inteligência ou poder, ao contrário dá força à afirmação da mulher como elemento imprescindível na humanidade.

E tanto ou mais importante é o papel da mulher, que apesar da aparente fraqueza corporal, é a ela que Deus atribui a gestação dos filhos, e só quem é mãe, sabe o quão difícil é uma gestação, um parto e consequentes anos da infância de um filho. Se ao homem, tradicionalmente foi incumbida a tarefa da defesa da sua família, da providência dos bens para sustentar a família, à mulher se deu o papel da gestão da casa e dos filhos, o que não é pouca coisa. Evidente que este papel tradicional ainda se vive em muitas sociedades atualmente, mas aqui no “Primeiro Mundo” estamos habituados a ver as mulheres a serem provedoras da família, a par dos homens.

Esta transformação de papéis e mentalidades, levou muitas mulheres a ocuparem lugares tradicionalmente ocupados por homens, transformando o ambiente social em oportunidades de afirmação e dignidade da mulher, e nivelando algumas desigualdades com os homens, como nos aspetos domésticos, onde hoje os homens já estão mais abertos à participação ao lado das mulheres.

Também no contexto da sexualidade, esta afirmação social e laboral das mulheres, alterou completamente o panorama da sexualidade feminina. De um papel tradicional de esposa e mãe, as mulheres mesmo na juventude ou solteiras, já não se comportam segundo os moldes tradicionais cristãos de castidade e virgindade, mas lutam pela sua afirmação e realização sexual, tornando-se ativas nesta questão, quando este papel era outrora dominado pelos homens.

A Igreja censura e condena no sexo, todo o exagero, que leve ao egoísmo, à exploração, à prostituição, etc. Isto tanto se aplica a homens como às mulheres. A mulher tem todo o direito de se sentir amada e realizada no sexo, mas a Igreja ensina que isso somente pode ser alcançado com equilíbrio físico e emocional.


De que forma é que a igreja aborda questões relacionadas com os direitos das mulheres, igualdade de género e feminismo?

Apesar do papel dito submisso da mulher ao homem, foi a Igreja Cristã que estabeleceu os princípios da afirmação pessoal da mulher, que são hoje a base da luta dos direitos da mulher. O casamento cristão cumpriu o papel de defender a mulher, em séculos passados, onde a mesma foi encarada como propriedade e bem pessoal da família ou marido; daí a origem do “dote”, que devia prover um fundo de provento para a sustentabilidade da esposa.

Os mosteiros e conventos femininos, foram casas religiosas onde milhões de mulheres se refugiavam e eram poupadas a uma vida de trabalho escravo, de prostituição, etc. Essas casas religiosas educaram as mulheres nas artes domésticas, dando-lhes uma educação até científica, numa época que a maioria do povo nem sabia ler ou escrever.

A Igreja através das suas instituições de caridade como orfanatos, recolhimentos, etc., deu abrigo, alimento, defesa social e política, asilo, a jovens e velhas, numa época onde nem hospitais ou lares havia, poupando-as à miséria, à fome, ao desespero e a uma morte incerta ou macabra. Assim, é verdade que apesar de uma certa relegação social da mulher em séculos passados dentro da Igreja, a mesma instituição fez pelas mulheres o que o mundo sempre lhes recusou: dignidade humana!

 

Como é que a Igreja Ortodoxa lida com crimes sexuais como violações, abusos?

Este é um tema meio complexo de abordar, pois mesmo entre as várias Igrejas Ortodoxas, a nível mundial, os crimes de índole sexual são encarados diante do quadro da lei civil, não tanto da lei religiosa.

Infelizmente pelos abusos sexuais que se sabe haverem até nos meios religiosos, a Fé Cristã defende como norma da sexualidade, as relações saudáveis estáveis dentro do namoro ou casamento. Por causa da visão bíblica; meio redutora; da procriação, o conceito religioso de relação sexual como ato de prazer ou afirmação pessoal, está longe de ser consensual e unânime, pois alterar essa visão seria alterar o que está escrito desde há milénios como regra. Daí a dificuldade de a Igreja modernamente responder aos limites que deve haver dentro uma relação sexual saudável.

Para a Igreja, o campo da sexualidade deve ser expressão própria do casamento, mas a realidade é que solteiros, viúvos, divorciados, LGBTQ+, etc., mantêm atividade sexual, a que a Bíblia responde apelando à abstinência, à virgindade, ora condenando como comportamentos que são errados e que deturpam o sentido básico da família e casal tradicional heterossexual.

Assim, nos tempos contemporâneos, a Igreja tem tentado responder às novas manifestações da sexualidade humana, mas sempre apelando que tudo o que passe do limite aceitável do físico, do emocional, do social, do psicológico, deve ser combatido e repudiado, pelo desvio que isso implica da expressão da sexualidade enquanto ato próprio do amor. Aqui se evidencia que os crimes de natureza sexual são condenados como deturpação do amor, pela própria contradição que apresentam ao ser humano, pela falta de respeito, limite e dignificação da pessoa.

Todos, homens e mulheres, somos seres sexuais, o sexo não pode ser entendido de forma vulgar ou perversa, mas encarado como uma manifestação da própria personalidade da pessoa. Assim se compreende que uma pessoa não madura de sentimentos, não equilibrada emocionalmente, não realizada fisicamente, psicologicamente fragilizada ou abusadora, tenderá a expressar nas relações com os outros, os seus medos, traumas, frustrações, ódios, etc. É neste campo que se produz o abuso, pessoas mal resolvidas consigo mesmas, com o seu corpo e sua sexualidade, tendem a ser pessoas abusadoras, e daí nascem os crimes sexuais.

Por crimes sexuais, temos além do abuso físico, o abuso emocional e psicológico, e sabemos bem que muitas pessoas que vivem estes dramas existenciais do sexo, se tendem a esconder atrás de máscaras sociais; uns na solidão, outros no casamento ou em relações momentâneas, outros em cargos de poder e autoridade, outros nas áreas da religião ou do esoterismo. Até porque, não é somente na Igreja que ocorrem casos de abuso sexual, a maior parte dos casos ocorrem dentro das famílias, assim como no âmbito escolar, desportivo, etc.


Qual a posição da igreja em relação à castração química?

Quando infelizmente, dentro da Igreja ocorre um crime dessa natureza, de abuso sexual a uma criança, jovem ou adulto, não devemos somente apontar o dedo aos padres, pois sabe-se que mesmo dentro dos movimentos eclesiais da igreja como catequese, grupos de oração, escutismo, etc., existem leigos e leigas (fiéis) que usam dos seus cargos e autoridade para esconderem os seus problemas, e podem ser abusadores sexuais em potência.

Como já afirmei, conforme o país local, a Igreja tende a resolver estas questões segundo o quadro da lei civil do Estado, que deverá sancionar e castigar os culpados. Infelizmente, também é de conhecimento que houve já casos de crimes sexuais encobertos, que muito envergonham a Igreja, pois numa tentativa de se poupar a Igreja ao escândalo público, muitos abusadores continuaram livres para praticar os seus crimes.

Ao contrário, é um ato corajoso, necessário e purificador, que a Igreja combata este flagelo da pedofilia, das relações ocultas, dos filhos ilegítimos, entre outras situações decorrentes das práticas sexuais do clero. Na Igreja Ortodoxa, como há possibilidade do baixo clero (diáconos e padres) serem homens casados e com família, evita-se muita confusão de relações escondidas, adultério ou filhos ilegítimos.

Mas mesmo no caso de haver, casos isolados de abusos sexuais da parte do clero, a regra da Igreja Ortodoxa é simples: o culpado é entregue às autoridades civis para devido julgamento, e a nível religioso, a maior parte dos casos acaba sendo suspenso ou mesmo expulso do estado clerical.

Sempre houve regras específicas ensinadas na formação de um futuro padre, seja ele um padre casado, ou solteiro, deve honrar o seu cargo, e não misturar as suas funções da Igreja, com as situações particulares da sua própria pessoa e personalidade. Logo, sempre que a Igreja perceba que o padre anda a ser muito íntimo nos espaços sagrados, com alguma pessoa, independente do seu género, o padre é alertado e corrigido pelos seus superiores imediatos. Este “policiamento” religioso é necessário, pois nem todos os homens que sejam padres, respondem da mesma forma no que toca à sexualidade, e a sublimação dos seus impulsos é a ordem e regra natural dentro do seu trabalho como ministro religioso.


Como encara a Igreja Ortodoxa, os abusadores sexuais que fazem parte da própria Igreja?

Acerca dos padres, homens e mulheres em geral, que incorrem neste género de abuso ou crime de natureza sexual, a Igreja encara a pessoa “criminosa” como alguém que precisa de ser acompanhado e tratado, tanto a nível espiritual, ajudando-a a compreender a sua dignidade como pessoa e fazê-la compreender o respeito que deve ter diante do outro, assim como deve ser tratado psicologicamente, se o problema de base da pessoa resultar de uma má formação humana-social, ou consequência de abusos, traumas, frustrações, etc.

A Igreja repudia atos extremos contra os agressores sexuais, como pena de morte, tortura, castração química, etc., por não respeitar a dignidade da pessoa em si. Não é com atos extremos de castigo que se consegue tratar de um agressor sexual, mas sim de forma terapêutica continuada; mas evidente há casos extremos que têm de ser avaliados e acompanhados especificamente, de forma a não permitir que o abusador volte a cometer os mesmos crimes.

O que é o exorcismo?

Este é um dos imaginários mais interessantes do campo religioso, por todo o folclore envolvido, entre o combate do bem e do mal, da virtude e do pecado, da virgindade e do sexo.

Exorcismo significa “expulsão”! Na Fé Cristã, designa-se por exorcismo o ritual da Igreja que trata das questões sobrenaturais negativas, ou seja, numa linguagem mais simples, trata-se de expulsar o Demónio, o Mal, as negatividades que atormentam o ser humano.  

O próprio Jesus Cristo foi exorcista, com vários episódios bíblicos que relatam isso mesmo. E foi Jesus quem deu “poder” e “autoridade” aos seus seguidores de combaterem e expulsar o mal da vida das pessoas, daí a origem dos Exorcistas. Hoje em dia, a Igreja restringiu o ato do exorcismo aos sacerdotes, devidamente formados e preparados para esta ação religiosa ou ministério.


O que existe em comum entre o exorcismo e a sexualidade?

Ao longo dos quase dois mil anos de Igreja, o exorcismo também lidou com as questões da sexualidade, e ainda hoje lida. Casos de histerismo sexual, de frustração sexual, de insatisfação sexual, casos de abuso sexual que alterou psicologicamente a pessoa, práticas de magia sexual, impotência sexual, infertilidade, etc. A lista é longa e cada caso é um caso! Sejam homens ou mulheres, heterossexuais, gays, lésbicas, etc., já exorcizei ao longo de quase 19 anos várias situações onde mais que o “demónio” à solta, temos casos de pessoas atormentadas pelo “inferno” pessoal que criam sobre si mesmas.


Como é que a prática do exorcismo se relaciona com as questões de sexualidade?

Podemos aqui fazer um juízo rápido, de que casos assim, serão meramente casos psicológicos, mas em alguns casos, sim, isso é verdade, mas noutros casos não! Existem casos espirituais autênticos que podem promover na vida e na sexualidade humana, autênticos martírios pessoais.

Claro que no mundo moderno, onde o poder científico humano parece ter desvendado e desbravado as fronteiras do desconhecido, mas evidente que em casos de crença espiritual, não há forma de se provar publicamente que tudo o que ocorre, tem origem sobrenatural ou tem origem nas práticas esotéricas. Afinal, nestas questões, impera o dom da Fé, e nem todos os recebem, nem todos o aceitam, nem todos o praticam. Acredita quem quer!

Mas sim, pela minha experiência pessoal, o mundo espiritual rodeia-nos e influencia-nos, seja pelo bem ou pelo mal, estando a humanidade num combate de influência à sua inteligência, vontade e ação; e é daqui que nascem muitas das questões “sobrenaturais” que envolvem a própria sexualidade humana.


Na tradição religiosa como é que a sexualidade é vista em relação ao exorcismo, existe uma influência ou há uma possibilidade de possessão demoníaca?

Biblicamente falando, sexo é procriação, e pela tradição religiosa cristã, o Demónio odeia a humanidade e quer a sua destruição total. Logo tudo o que possa humanamente criar vida, não só o sexo, mas o amor que fortalece os laços da sexualidade, é combatido de forma a colocar a sobrevivência da humanidade em causa. Daí se explica o facto de, nos exorcismos, a maior parte dos casos conhecidos se relacionarem com mulheres, não por serem mais “sensíveis”, ou mais “fracas” fisicamente, mas pelo fator principal de que são as mulheres as gestantes da vida!


Quais as crenças especificas como comportamentos sexuais considerados pecaminosos e que podem abrir portas para influencias espirituais negativas?

Assim, não é de estranhar que o folclore cristão, e as suas crenças, tanto trataram de divinizar a mulher, no exemplo máximo da Virgem Maria, como tratou de diabolizar a mulher, com o exemplo de Eva. Estas crenças, mescladas com as tradições pagãs das sacerdotisas dos antigos cultos politeístas, geraram a imagem negativa da bruxa, serva do Diabo. Relatos de “bruxas” que foram julgadas, mostram uma imagem degradante da condição da mulher em séculos anteriores, onde a mesma não tinha direito a se autoafirmar, era-lhe recusado o prazer sexual, entre outros aspetos negativos.

Essa necessidade do ser humano de se libertar das restrições religiosas, de explorar e viver a sua sexualidade sem medo, causou muito mau estar social, em tempos onde a virgindade e abstinência sexual era encorajada, por razões não só meramente espirituais, mas até práticas que envolviam as questões de higiene, saúde, sobrevivência. Falamos de um tempo onde a fraca higiene conduzia a infeções e doenças das áreas genitais com frequência, onde as doenças venéreas eram tão mortais como uma epidemia, onde não existiam produtos contracetivos, e a gravidez era sempre um desafio enorme e a mortalidade infantil uma realidade constante.

Hoje para entendermos a diabolização do sexo e da atividade sexual, temos de compreender estes aspetos negativos, que hoje com a melhoria das condições de habitabilidade, de saúde, etc., já não nos ocupa a mente com a mera sobrevivência, só por termos atos sexuais; apesar das realidades das doenças sexualmente transmissíveis serem ainda uma realidade.


De que modo as práticas do exorcismo lidam com a suposta presença de espíritos ou demónios que podem estar associados à sexualidade como por exemplo a perversão sexual, sadomasoquismo e outros vícios associados?

No contexto religioso e esotérico, o sexo sempre foi uma área de manipulação, de influência e poder, daí não ser estranho que muitas práticas mágicas se centrem no corpo, na sensualidade, na atração, na conquista e no ato sexual. E algumas destas práticas quando mal geridas, podem causar alterações espirituais na pessoa, assim como alterações psicológicas, em todo o caso, tudo o que não respeite o livre-arbítrio e o natural desenvolvimento afetivo, é condenado pela Igreja, pois o amor e o sexo devem um ato livre e consciente do ser humano e não uma manipulação, pois aí subentende-se exploração sexual, prostituição, egoísmo, etc.


A prática do exorcismo pode ser distinguida em questões de saúde mental, incluindo transtornos relacionados com a sexualidade, como disforia de género ou compulsões sexuais?

Na prática do exorcismo da Igreja, é comum, que muitas pessoas que buscam essa ajuda espiritual vêm com problemas sentimentais e sexuais de vária ordem. Desde relações falhadas, cujas partes estão em guerra e ato de vingança; situações de extrema estimulação sexual por conta de medicações e drogas; situações de trauma, violência, anulação da personalidade e identidade sexual; casos de adultério; casos de abandono e fuga; casos de sexualidade mal vivida ou mal orientada; casos de negação da sua natureza sexual; abusos sexuais na infância; casos de impotência ou infertilidade; casos de revolta contra o seu próprio corpo, etc., a lista é imensa, e muitos destes casos, as pessoas buscam respostas rápidas e “milagrosas”, esquecendo que o trabalho de cura interior começa por elas mesmas, pois mesmo nos casos negativos da sexualidade humana, a pessoa que não aceita a sua realidade, não conseguirá por meios religiosos ou esotéricos resolver seja o que for!

Na questão do exorcismo, sobre se existe possibilidade de uma pessoa ser atormentada demoniacamente na sua sexualidade; mais uma vez, é uma questão de fé e crença; mas sim, são reais alguns casos de as vítimas sentirem toques, cheiros, sensações próprias do ato sexual, etc., que a demonologia clássica cristã atribui essa intervenção sobrenatural a demónios do sexo, designados por Íncubos e Súcubos. Alguns destes casos, quando autênticos, podem ser gerados de forma involuntária, quando a vítima é manipulada sem o seu próprio consentimento, ou podem ser gerados de forma voluntária, quando a pessoa por si mesma se permite, deseja e invoca essa ação sobrenatural.


Quais as implicações psicológicas e emocionais para as pessoas que buscam o exorcismo para assuntos relacionados com a sexualidade?

Ao ser praticado o exorcismo, o sacerdote além da parte religiosa, onde invoca o auxílio e a proteção de Deus sobre a pessoa atormentada, tem uma parte catequética muito importante, onde deve alertar a pessoa à prática das virtudes da Fé Cristã, como meio de defesa espiritual. Também em muitos destes casos, quando existem indícios, o sacerdote aconselha à pessoa que deve a mesma ser acompanhada a nível psicológico ou psiquiátrico.

 

Igreja e Ciência, são incompatíveis?

A Igreja e a Fé não são inimigas da ciência, ao contrário a ciência humana, sobretudo as ciências psicológicas, tendem a negar o sobrenatural, e a reduzir tudo ao âmbito da mente humana; o que na prática frusta imenso um acompanhamento benéfico à pessoa afetada.

Infelizmente as pessoas não têm grande conhecimento ou noção de como se realiza um ritual de exorcismo, e tendem a crer que o que se vê nos filmes, séries de TV, literatura, etc., é a realidade da situação. Se bem que o confronto espiritual é autêntico em casos de possessão demoníaca, mas o que os Media mostram é muito deturpado e sensacionalista e não corresponde à realidade.

A esmagadora maioria dos casos sobrenaturais não são casos de possessão, com demónios a gritar e a ameaçar, mas são sim casos “silenciosos” onde a pessoa afetada se vê influenciada por “azares”, “doenças”, “desastres”, “empates”, etc., de forma constante e sistemática, onde as áreas mais visadas são as que afetam a saúde, os afetos (amor e sexo) e a área financeira (bens pessoais). Estes casos sim, são os mais frequentes e manipulados no esoterismo (bruxaria, feitiçaria, magia negra e afins) para destruir uma pessoa, ou mesmo uma família.


As práticas de exorcismo podem ser prejudiciais? Envolvem riscos?

Não há pessoas livres destes confrontos sobrenaturais, pois o ser humano, sendo composto de corpo e espírito (alma), um dois em um, que tem de ser tratado tanto na saúde física e mental, como no equilíbrio espiritual; daí a Igreja desaconselhar fortemente as pessoas de se envolverem no esoterismo, na magia e coisas similares, pelo perigo que isso pode vir a causar na vida da pessoa.

E mesmo as práticas sexuais, quando mal orientadas, mal vividas, podem causar este desequilíbrio espiritual, revelando-se fisicamente em casos de aparente incapacidade, inércia, depressão, ansiedade e similares. O que sempre se aconselha, é viver de maneira saudável, segundo a sua natureza e orientação, pois o amor e o sexo de forma construtiva só se vive se formos verdadeiros com o que somos como pessoas!


Sexualmente realizado. Vida feliz é o lema do Love with Pepper concorda?

Sim, ser feliz importa para a realização do nosso “Eu” sexual. Hoje o mundo vive obcecado com a imagem do corpo, com o ideal de beleza impossível, com os homens e mulheres a serem “máquinas” de sexo, esquecendo que nós somos simplesmente humanos…

A necessidade de amar e ser amado é natural, assim como a natureza revela à nossa volta os mesmos comportamentos afetivos, emocionais de alegria, tristeza ou dor, o ser humano nasceu para o amor! E Deus é esse exemplo máximo, no qual os cristãos se inspiram.

Num mundo consumista, onde o sexo é visto como mercadoria, moeda de troca ou de influência ou afirmação social, é quase incompreensível perceber como alguns homens e mulheres renunciam ao sexo. O que não conseguem perceber, é que a renúncia do sexo, enquanto ato sexual, não é sinal de falta de amor, mas no contexto religioso da Fé Cristã, é um ato de doação de si mesmo, da sua liberdade.

Muitos perguntarão, como já muitas vezes fui abordado, se não existe necessidade do toque, do beijo, do abraço, do sexo em si mesmo. Seria mentiroso se dissesse que não! Um padre é um homem como os outros, no sentido da sexualidade, do desejo, do afeto, mas, na prática não é como qualquer outro homem, pois é ensinado a doar essa parte da sua vida; no meu caso como Monge consagrado, às necessidades da Igreja e do ministério sacerdotal.

Que desperdício, não é natural, não compreendo como consegue, etc... Somente quem não se sabe meter na pele do outro, compreender a sua realidade e afetividade, entender a sua sexualidade, é que pode condenar um padre, um monge, uma monja, homem ou mulher, que consegue abdicar de sexo. Se é fácil, não é! Mas não é impossível fazê-lo!

Mas também é uma realidade cada vez mais tangível na sociedade portuguesa, de muitas pessoas que após relações terminadas, divórcios, viuvez, optam por uma vida solitária e celibatária. Cada vez mais é recorrente que depois dos 40 anos, muitos homens e mulheres optem por estarem sozinhos, sem relações estáveis ou compromissos afetivos, pois olham com certo desconforto e desconfiança o mundo moderno dos sentimentos egocêntricos e egoístas, não conseguindo se identificar com o sexo descartável.

No meu caso pessoal, quando me abordam, invariavelmente digo, meio sério, meio a brincar: o que tinha de fazer, já fiz!

Enquanto jovem, namorei, tive romances, relações e algumas “ralações” pelo meio, sexo… fiz e não foi pouco! Mas foi próprio da juventude e, sim, sempre com consciência plena de que sexo sem amor, é uma tristeza! Amei amar e ser amado! Se me sinto equilibrado e realizado? Muito! Se sou feliz na minha solidão e ausência de sexo? Muito! O amor e o sexo são isso mesmo: liberdade de decidir, de se doar e de se entregar! É neste princípio de liberdade que Deus nos criou e nos ama, pois… o Amor é Deus, e Deus é Amor!

Dom Abade André

Padre Fr. Humberto Rolo - ICOH

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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