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Helena Coelho, uma ex Doce para sempre Doce


Helena Coelho, filha de um ator e uma fadista, integrou uma das maiores girlsband da música portuguesa da década de 80, as Doce.

Mãe, Esposa e Avó assume-se com 58 anos e define-se uma mulher como qualquer outra, com defeitos e qualidades .

Nesta entrevista Helena Coelho uma mulher com essência e carisma, abre o seu coração sobre um tema que ainda hoje é tabu, o aborto.

Atualmente, embora legalizado, a mulher ainda sofre a nível psicológico e físico, amordaçada pelo preconceito.

Ficamos com este testemunho, tentando desmistificar um tema tão complexo para a nossa sociedade e cultura.


Como define o seu percurso de vida?


Consegui ao longo da minha vida tudo com que sonhei na minha infância. Fazendo o percurso, fui conquistando etapa por etapa todos os meus objetivos, quer a nível profissional quer a nível pessoal.

Resolvi desistir do meu lado profissional , porque achei que não davam valor à cultura e desprezavam o meu trabalho, e como tinha outro sonho, o sonho familiar decidi entregar-me completamente à minha família.

Neste lado consegui gerir afetos, amor que é isso que eu tenho feito ao longo da minha vida.



Qual a diferença da Helena Ex Doce, da Helena dos dias de hoje?


A Helena das Doce era uma miúda apenas com 16 anos , era difícil, não tinha maturidade, rebelde, teimosa ( um aspeto que me é muito peculiar) , mas muito divertida sempre bem disposta, e a sorrir para a vida, era uma adolescente .

Nos dias de hoje esta Helena tem mais maturidade, responsabilidades do que naquela altura , mas continua a ser a mesma pessoa, a minha essência continua cá.




Como se define como Mulher, Mãe e Avó?


Sempre fui muito pragmática na forma de educar, de gerir e de amar, considero -me justa .

Relativamente às questões de Avó e maternas , nunca fui muito permissiva e que admitisse tudo, mas dou tudo o que tenho para dar o amor , o respeito, a educação, o melhor de mim, como faço com o meu marido.

Contudo, a pessoa que eu mais amo na minha vida sou eu mesma.


Considera-se uma Mulher feliz e realizada?


Realizada sim, tenho tudo que queria ter e sou muito grata à vida, mas a felicidade é muito efêmera, que não existe por completo, são apenas momentos.

Temos que ser gratos aquilo que temos, eu sou!


É romântica ? E ciumenta?


Romântica sim, mas ciumenta fui muito, embora agora não o seja, porque faz parte do nosso crescimento.

O ciúme só nos magoa e cria amargura, deixa-nos em baixo e não nos leva a lado nenhum.

Exijo respeito e que o tenham por mim.


Sente-se uma mulher desejada com 58 anos?


Sim, sinto e desejo.



Com que idade engravidou pela 1ª vez?


Foi aos 18 anos.


Foi uma gravidez desejada?


Não. Sublinho que as vezes que engravidei sem querer , nunca foi por não ter cuidado, eu tomava a pílula, logo não queria engravidar.

Sempre fui uma mulher fértil e costumo dizer que eu engravidava só com o cheiro ( risos) .


A Helena assumiu publicamente que praticou 3 vezes o aborto enquanto cantora nas doce.


O que a levou a tomar essa decisão no 1º aborto?


O que me levou a tomar essa decisão foi ter assumido um compromisso com as Doce,.

Nós Doce entregamo-nos de corpo e alma a este projeto e se alguma de nós saísse , o grupo acabava e ninguém nos podia substituir.


A Laura , a Fátima, a Teresa e Eu , éramos insubstituíveis , e o projeto em si era tão arrojado e estava a ter tanto sucesso , que não tínhamos direito de acabar, mas sim o direito de assumir o compromisso com caráter e responsabilidade.


O facto de nós Doce ser um sucesso, tínhamos que viajar muito, muitos concertos, muitas horas de trabalho , o desgaste e o cansaço era tanto que todas as vezes que engravidei , não foi por não tomar as precauções, mas sim pela debilidade e cansaço físico.


Além disso , na altura o meu namorado , o pai do meu filho, que também integrava nas Doce , trabalhava e ia sempre connosco para todo o lado, óbvio e naquelas idades quem é que deixa fugir uma oportunidade para o amor.


Assim sendo, logo se eu levasse todas as gravidezes avante eu ia acabar com as Doce, o que aconteceria mais tarde.


Quais os danos que teve após esse ato (físicos e psicológicos)?


Físicos na altura não senti, mais tarde tive que fazer uma cirurgia e remover o útero, isto deve -se aos maus tratos que dei ao meu organismo, pois esta prática era clandestina.

Quanto aos danos psicológicos ficaram muitos , mas já estão muito atenuados.

Com o passar dos anos e o nascimento dos meus filhos, a dor vai passando, mas recordo-me que na altura quando passava em lojas de bebês , não conseguia olhar, o simples olhar fazia-me chorar , era muito difícil lidar com este tipo de situação.


Voltar à atividade sexual depois dessa prática como foi?


Que eu me recorde e me lembre tinha prazer, não tive problema nenhum. Só tinha medo de voltar a engravidar, porque ao saber que tomava a pílula e engravidava , parecia um fantasma.

Embora tivesse que deixar passar um tempo , para voltar a fazer o que fosse.


Sendo o elemento mais novo das Doce , sentia-se mais desejada a todos os níveis do que os outros elementos?


No meu ver não, mas elas dizem que sim, comentavam que os homens ficavam doidos comigo ( risos).

Tinha a perceção que era uma mulher nesse aspeto de desejo com muito sucesso , e elas referem muito esse aspeto.

Os meus pais diziam -me que eu era uma Mulher de parar o trânsito!(risos)

Agora a noção dessa forma ser mais que as outras não!





Voltou a engravidar passado quanto tempo?


Acho que foi num intervalo de um ano.


O que a levou a fazer uma segunda vez?


O motivo foi sempre o mesmo , as Doce. A minha dor e angústia sempre aumentar , mas naquela altura tinha o desejo de ser Mãe, mas como assumi aquele compromisso não podia continuar com a segunda gravidez.

Foi uma luta muito dolorosa e angustiante.


A sua família tinha conhecimento e o apoio deles?


Não tiveram conhecimento, não tinha o direito de os magoar , apenas queria os poupar do que fiz daí não ter o apoio.

Tinha e tive que sofrer sozinha.


Como Mulher nunca se sentiu recriminada a nível pessoal, profissional e familiar por ter feito este ato?


Não, mas considero que as pessoas só têm a importância que eu lhes dou!

Conto -lhe um caso que me aconteceu recentemente, quando fui ao programa do Goucha e assumi publicamente que fiz esta prática 3 vezes.


Lembrei-me de ir ao Facebook para ver os comentários da publicação , onde chego à conclusão que estamos num mundo de gente mal amada, frustrada a destilar veneno nas redes sociais.

O que mais me revoltou foram os comentários das mulheres e de homens também a referir que era uma criminosa , leviana , enfim... pensei com muita tristeza minha que esta gente não valia nada, e foi exatamente por este tipo de gente que eu resolvi largar , afastar-me da minha vida profissional.


Tenho consciência que ninguém pratica um ato destes de forma leviana , eu pelo menos não o fiz, e ninguém tem o direito de me recriminar, porque sou dona e senhora do meu corpo.


Passado algum tempo vem a 3ª gravidez.


Como se sentiu na 3º gravidez?


Desesperada completamente, sendo esta a última vez que o iria fazer.

Tinha uma viagem marcada para a América e descobri que estava gravida dias antes.

No dia que ia viajar , uma viagem de 8 a 10 horas, fui fazer a 3ª interrupção, e foi pelos mesmos motivos as Doce.

Esta última interrupção foi muito dolorosa, segundo me contaram. O meu subconsciente estava contra aquilo que ia fazer, amarraram-me e gritava , a anestesia não fazia efeito, um verdadeiro horror.

Aí decidi que não fazia mais nenhum.


Na 3º gravidez ponderou o não abortar?


Não, aconteceu está lá a dor , o processo em si um horror, assumi um compromisso com Doce , era uma tournée que não podia falhar.

Referi que se tornasse acontecer a 4ª vez não o faria, nem conseguia praticar mais vez nenhuma este episódio.


Como Mulher que o é , praticando este ato, como é que se sente ainda nos dias de hoje?


Tive que desvalorizar , o que se passou. Sou mulher e tomo as decisões da minha vida.

Considero que o tempo cura e a vida é para a frente e não para trás, o que está feito aconteceu , já passou.

Sofri o que tinha a sofrer e agora é olhar em frente porque a vida continua.

Gosto de mim e se gosto de mim tenho que me preservar.

Quando as situações já não se resolvem, para quê martirizar?

Não vale a pena, nem existe necessidade de pensar nem retesar.


Sentiu alguma descriminação por parte das suas colegas das Doce naquela época?


Pelo contrário, sempre tive o apoio, carinho e compreensão de todas, éramos muito unidas.


Hoje assumiu publicamente , sente-se discriminada por isso?


Não. As pessoas só têm a importância que lhes damos.


Como se sentiu levar uma gravidez até ao fim?


Isto é um contrassenso, nunca gostei de estar grávida, 9 meses grávida é uma situação horrível e insuportável engordei 25kg , o nosso corpo transforma-se.


Hoje sou mãe de um rapaz e uma rapariga.


O sair das Doce e o ser Mãe mudou a sua vida?


Sim, mudou para melhor, já estava farta das Doce.

Queria ter outro tipo de trabalho, tinha planos ao contrário das minhas colegas.

Formei a minha própria banda , que durou por volta de 3 anos , depois tive propostas de teatro que era um grande sonho meu ser atriz, onde consegui concretizar.

O ser Mãe também foi maravilhoso e mais realização pessoal, para apagar as mágoas e angústias.

Tenho vivido a minha vida em paz e plenitude.


Sempre se sentiu uma Mulher segura a nível sexual depois destes atos?


Sim, sempre fui muito bem sucedida! (risos)


Sentiu que era o melhor para a sua vida naquela altura?


Sim, fiz o que tinha que ser feito.

Tenho consciência que se tivesse tido um filho antes dos 20 anos a minha vida teria sido outra, e não sei se era a pessoa que sou hoje.

Talvez seria uma pessoa infeliz e não o sou!


Na realidade ter uma criança é uma bênção e uma enorme responsabilidade na qual temos que nos sentir preparados para o fazer. Se calhar às vezes é melhor não fazer.


O amor cura tudo?


Na minha opinião o amor cura muitos pontos, mas por exemplo não cura desgostos.

Por exemplo o caso de perder um ente querido , a distância, a ausência, a traição entre outros aspetos, a meu ver, o amor não consegue tratar nem curar.

Ameniza, mas não cura.





Já viu o filme das Doce? Como foi homenagear ?


É estranho, mas o facto de olhar para aquelas Doce é como estar a ver cada uma de Nós e é uma sensação maravilhosa, fantástica, mágica que eu não sei explicar, mas é muito agradável e aumenta-nos o ego.

Sinto um grande orgulho!


Helena Coelho, ex Doce e Atriz























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