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Catarina Oliveira, Espécie Rara sobre Rodas



3 de Dezembro de 2023, Dia Internacional das Pessoas com Deficiência


Catarina Oliveira, natural do Porto, 32 anos, nutricionista, dedica-se também a uma causa como ativista dos direitos das pessoas com deficiência, dando palestras em escolas, universidades, empresas e inclusive trabalha com algumas marcas a nível de publicidade.

Tem uma pagina no Instagram de nome “Espécie Rara Sobre Rodas” e usa as redes sociais para desconstruir preconceitos contra pessoas com deficiência e lutar pela acessibilidade. Através da Internet começou a partilhar com o mundo as suas experiências de adaptação a esta nova realidade da sua vida. Embora originalmente não tivesse a ideia de criar um projeto online, o interesse foi aumentando ao longo do tempo, motivado pela crescente ambição de desconstruir preconceitos contra pessoas com deficiência e de lutar pela acessibilidade.

Nesta entrevista ao Love with Pepper, Catarina abre o coração sobre as dificuldades do dia-a-dia de uma pessoa com deficiência.


Como é que tudo aconteceu?

Tornei-me uma pessoa com deficiência há 5 anos, numa viagem ao Brasil quando fui visitar uma amiga. Tive uma inflamação na medula, mielite transversa, ficando sem sensibilidade nos membros inferiores. Hoje em dia desloco-me de cadeira de rodas.


Quando tomou conhecimento do seu estado clínico o que lhe veio à cabeça?

Para ser honesta sempre tive consciência do que me estava a acontecer, porque estudei medicina. Tinha noção do que era uma inflamação na medula. A questão de não andar, não foi dramática. Para mim o pior foi estar internada. Obviamente que tive um processo de transição. Percebi que a minha vida ia mudar, tudo ia ser diferente, mas basicamente o que eu queria era retomar a minha vida fora do hospital o mais rapidamente possível. Quando saí do hospital, houve momentos muito complicados em que me apercebi que não ia conseguir fazer o que fazia antes. Não por estar numa cadeira de rodas em si, mas sim por todas as barreiras que a sociedade me impunha.


Como encarou e como lida com esta realidade?

Lido de uma forma bastante tranquila, ou seja, tenho consciência da minha condição física, das minhas limitações, da minha cadeira, mas a sociedade e a forma como esta nos exclui de locais e olha para nós de forma diferente, é triste.

Hoje em dia com o trabalho que tenho feito tento desmistificar os mitos e estigmas que estão aliados às pessoas com deficiência e procuro combater estas barreiras que são sem duvida alguma a nossa limitação.



Já teve uma relação amorosa após esta situação?

Na altura que fiquei paraplégica tinha uma relação que terminei, mas não teve nada a ver com a minha situação. Depois disso já tive outras relações, umas mais sérias outras menos sérias, porque as pessoas com deficiência também têm relações.


E o retorno à vida sexual?

O retorno à vida sexual foi na altura com o meu namorado, com quem tinha um relacionamento há 7 anos. Tinha muita confiança e penso que isso ajudou-me muito. Também há um redescobrir do nosso corpo, de toda nossa vida sexual em si. Além disso também tive outras relações sexuais, nesta minha nova condição, onde não havia tanta confiança, mas como sempre fui desprovida de tabus, ou seja, falo abertamente dos assuntos com as pessoas com quem lido e com quem estou, ajuda a que tenha relações sexuais prazerosas, independentemente de ter ou não deficiência.


Fale-me como foi a primeira abordagem após esta nova condição?

Quais os obstáculos que encontrou em relação a isso?

A minha primeira abordagem depois desse meu namorado foi no Instagram e também pessoalmente, ou seja, são pessoas que vou conhecendo e onde pode ser que ocorra um interesse de ambas as partes e surja uma relação mais casual ou prolongada.

Mas o que eu noto é que muitas abordagens são feitas de uma forma não tão direta, portanto mais virtual e que o obstáculo que encontrei foi o preconceito, porque as pessoas não sabem como me abordar, devido a ser uma pessoa com deficiência e estar numa cadeira de rodas.

No entanto, eu continuo a ser a mesma Catarina. Simplesmente sentei-me e por vezes uma pessoa perde o interesse em mim e tenho consciência que na maioria das situações não sabem como me abordar devido à falta de informação, preconceito e estigmas. Portanto esses são os maiores obstáculos.



Sente vontade de ser Mãe? E como encara a maternidade?

Tenho muita vontade de ser Mãe quer biológica quer adotiva. Esse desejo está nos meus planos a médio prazo e efetivamente a maternidade numa pessoa com deficiência não é muito falada, porque a sociedade acha que nós não temos vida sexual, não podemos exercer o papel de Mãe e Pai se assim o desejarmos. Tem que se desconstruir estas questões e quebrar os tabus e preconceitos.


Alguma vez sentiu desprezo ou pena no olhar de um homem quando a viu nesta situação?

Na realidade desprezo não e não é necessariamente de um homem que sinto essa pena. Pena num olhar capacitista, ou seja, num olhar de uma pessoa que não entende que ao viver com uma deficiência se pode ser igualmente feliz. Não sou merecedora de pena de ninguém. Simplesmente sou a mesma Catarina num contexto diferente. A nível amoroso não, mas no meu dia-a-dia sinto que pessoas, quer conhecidas quer não, olham com esse olhar de pena.


Alguma vez foi rejeitada a nível amoroso devido á sua condição física?

Acho que não, pelo contrário. Todos os homens que tive interesse e com quem podia até existir algo, se não aconteceu é porque não tinha que acontecer. Não sinto que por eu ser especial, estar numa cadeira, me rejeitassem. Obviamente que já deve ter acontecido, ou seja, olharem para mim e nem sequer verem uma mulher interessante e bonita. Mas nunca senti isso nas minhas relações.



Enquanto casal como abordaram o assunto em relação à sua sexualidade?

Penso que todos os casais quer com deficiência quer sem devem falar abertamente sobre as suas condições especificas, os seus desejos e as questões com o parceiro. Só assim é que as relações conseguem ser prazerosas, senão é uma relação sexual rígida e a penetração muitas vezes fica comprometida/prejudicada. Uma pessoa com deficiência tem determinadas condições particulares que têm que ser faladas porque não há conhecimento, apesar de não ser nada do outro mundo. No momento, que exista diálogo entre duas pessoas que se amam e queiram ter relações sexuais, tudo corre bem!


Abordou esse tema com um profissional?

Não. Engraçado que quando estive no centro de reabilitação nunca ninguém me falou da sexualidade, mas é muito comum a comunidade médica achar que a questão da sexualidade não deve ser uma preocupação para este tipo de doentes, pois estes já têm tantas preocupações. Mas isso não é verdade. Muitos destes doentes têm relacionamentos amorosos, sentem-se amados, desejados. Sentir que as suas necessidades sejam atendidas é tão ou mais importante como qualquer outro tipo de reabilitação. Na altura que fiquei com deficiência fui à descoberta e hoje acredito que por falar neste assunto seja um tema mais falado, quer por pessoas, quer por profissionais. Tenho noção que também é uma pequena minoria que considera efetivamente que a sexualidade na deficiência e na reabilitação não seja um assunto considerado importante e isso tem que ser mudado, porque a sexualidade na Pirâmide de Maslow não é inversa para pessoas com deficiência. As necessidades básicas têm que ser garantidas e a sexualidade é uma delas.


O que é que um homem precisa de ter para ser um companheiro ideal para si?

Ora bem um homem ou mulher, nunca se sabe! (risos) As minhas relações foram um bocadinho acontecendo, foi-se criando uma química, cumplicidade, sentido de humor, diálogo, entreajuda e todos os clichés que toda a gente devia querer para garantir uma relação. Não procuro uma pessoa com caraterísticas físicas, procuro alguém que me faça feliz, que me complete, que me acrescente e que esteja junto de mim para partilhar uma vida ou uma fase da minha vida.


O seu desejo sexual manteve-se ou alterou?

O meu desejo manteve-se. O que alterou foi realmente o meu nível de sensibilidade. As sensações são diferentes, o meu corpo é explorado de outra forma quer por mim, quer pela pessoa que está comigo. Isso acontece muito, porque existe diálogo e existe também um conhecimento do meu próprio corpo. A nível do desejo sexual não se alterou.



Acha que a nossa sociedade masculina está preparada para lidar com a diferença?

A sociedade não está preparada para a diferença, quer seja homem, quer seja mulher, embora ache que está a preparar-se para abrir horizontes, mas o caminho ainda está longo. Certos assuntos têm que ser desmistificados, porque na verdade a nossa sociedade talvez seja um pouco hipócrita e todos seguem o padrão desta, mas na verdade a diferença existe em todos nós e é visível ao olhos de todos , porque Nós somos todos diferentes.


Como se protege/lida e gere os olhares preconceituosos que possam surgir?

Tento educar as pessoas, que é o que faço com o meu Instagram (Espécie Rara Sobre Rodas). No meu dia-a-dia alerto as pessoas para o preconceito sem apontar o dedo, no sentido de julgar. Nunca é julgar, mas sim, educar!

Quem quiser estar aberto e ouvir o que sinto, o que acho e a desconstruir preconceitos e quebrar tabus pode seguir comigo, quem não estiver pode seguir com a sua avida, pois não fará parte da minha. É assim que lido com os olhares que possam surgir.


Acha que hoje é uma pessoa mais forte, resiliente e preparada para a vida?

Uma pessoa mais forte não sei, mas sei que vem uma força de dentro de nós que nos torna mais fortes, porque existem situações na nossa vida que nos vem demonstrar que a nossa força e capacidade psicológica, está lá. Resiliente acho que sou, porque a sociedade impõe-me imensas barreiras que fazem com que realmente eu tenha que ser mais resiliente. O meu objetivo, é apenas ser uma pessoa normal, porque todo o normal pressupõe um anormal, ou seja, que esteja inserido na sociedade e que lhe dê as oportunidades que lhe davam quando era uma pessoa sem deficiência.



O que gostaria de dizer a alguém que tem o seu problema e está inseguro em iniciar a vida sexual?

Generalizando as pessoas com deficiência é normal sentir insegurança e o que aconselho é perguntar se medo, não se submeter à primeira resposta, perguntar aos profissionais de saúde e outras com deficiência que vivem o mesmo que você. Isso é muito importante. Não terem medo das respostas e da procura de soluções mesmo que à partida digam que não existem.

Eu tenho uma vida sexual plena, prazerosa, mas fiz uma redescoberta espetacular, portanto, estou disponível dentro do que tiver conhecimento para ajudar quem possa ter dúvidas.


O amor vence o preconceito?

Acho que quando existe Amor, o preconceito não se coloca em questão, principalmente quando as relações são com pessoas com deficiência. Consequentemente, considero que o diálogo vence o preconceito, o amor vence o preconceito e a educação vence o preconceito.


Catarina Oliveira, Nutricionista e Palestrante

Instagram: Espécie Rara Sobre Rodas


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