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Assexualidades



Dia Internacional da Assexualidade





A assexualidade é uma condição em que a pessoa não se sente atraída, erótica ou sexualmente, por nenhum sexo ou género.

No entanto, a grande maioria dos assexuais afirmam ter as mesmas necessidades emocionais dos outros e, por isso, são capazes de estabelecer relações afetivas como os demais.

Apenas o fazem sem o sexual envolvido e vivem realizados desta forma, visto que não sentem estar a perder nem renunciar a nada.


Embora não sintam atração sexual ou a sintam de forma muito ligeira, os assexuais podem, voluntariamente, envolver-se em atividades sexuais, pelas mais variadas razões: para satisfazer a(o) parceira(o), pelo desejo de ter filhos ou utilizam o sexo como forma de fortalecer o vínculo com os seus parceiros amorosos.


Não se pense que, contrariamente a outras formas de expressão da sexualidade menos comuns, os assexuais não sofrem discriminação. A não aceitação social da diversidade e a imposição de um padrão sexonormativo, geram um sofrimento de consequências variadas na sua saúde mental de muitas destas pessoas.

Mesmo em contextos sociais (aparentemente) mais tolerantes, quando confrontadas com a assexualidade, as pessoas precipitam-se para as perguntas e as expressões da praxe: “ainda não conheceu a pessoa certa”; “deve ser um problema hormonal”; “está a fugir de qualquer angústia”; “terá sido abusado(a) em criança?”.

A ideia de trauma associado à assexualidade é muito comum, na cabeça de quem olha.


Esta é precisamente uma das lutas mais importantes deste movimento: o reconhecimento da assexualidade como mais uma solução sexual possível, de maneira a que os assexuais não sejam patologizados.

Mesmo entre médicos e psicoterapeutas, é comum associar a assexualidade ao diagnóstico de Transtorno do Desejo Sexual Hipoactivo (TDSH), muitas vezes interpretado como um sintoma de um quadro depressivo ou de uma alteração hormonal.

Regra geral, o assexual reconhece-se como tal ao longo da vida, enquanto que no TDSH há uma mudança: onde antes havia desejo há agora indiferença ou anestesia, e esta é portadora de sofrimento.

Na assexualidade “não sintomática”, o diagnóstico diferencial mostra-nos que não há depressão, TDSH, trauma, efeito secundário de medicamentos ou problemas hormonais a determinar este funcionamento.


Contudo, o facto de aceitarmos a despatologização das assexualidades não dissipa a dúvida: qual foi o destino da pulsão sexual?

A resposta estará no caminho pulsional individual e subjetivo de cada um, com os respetivos mecanismos de repressão e sublimação.


Outra aspeto importante é a necessidade de transformar a assexualidade numa orientação sexual. Se este funcionamento não é fixo e tem inúmeras nuances que, como abaixo veremos, podem acender algumas formas de desejo sexual, não poderia ser apenas considerado como um estado e respeitado como tal?

Porque são necessários tantos rótulos?

A criação do rótulo evidencia a demanda do reconhecimento social do direito à recusa de toda e qualquer prática sexual. Essa delimitação (que a realidade nos mostra que não é fixa) visa criar uma identidade assexual, com as correspondentes características identitárias, que, por sua vez, vem proteger a identidade da pressão do ideal do eu, individual e coletivo.

Numa sociedade como a nossa que hipervaloriza o sexo e que pressiona as pessoas para uma competição desenfreada, a assexualidade assume um cariz político de recusa do modelo dominante.


Há já algum tempo que está em curso um movimento de reconhecimento das mais diversas formas de subjetivação da sexualidade. Pelo caminho, tem-se dado uma explosão de rótulos e, dentro destes, a criação de diversos subtipos, de maneira a que todos se sintam reconhecidos e integrados.


Senão, vejamos alguns dos inúmeros subtipos de assexualidades descritos.

O assexual arromântico – aquele que não sente atração sexual ou romântica; o gray-sexual o que está numa zona cinzenta entre os assexuais e aqueles que sentem atração sexual (alossexuais), ou seja, sentem alguma atração sexual, de forma ligeira ou esporádica; o assexual fluido - ora sente atração ora sente repulsa; o demissexual - precisa de envolvimento amoroso para haver envolvimento sexual, numa lógica de preciso de te amar para te desejar; o assexual autoerótico – aquele que apenas tem atividade masturbatória; o assexual romântico - tem interesse em envolvimentos amorosos, mas sem envolvimento sexual. Dentro deste subtipo temos os hétero-românticos, os homo-românticos, os bi-românticos ou os pan-românticos (todos os géneros).


Em minha opinião, todas estas gavetas são pouco interessantes e afastam-nos da realidade, bastante mais complexa e fluida, mas compreende-se a motivação.

A crítica feita, muitas vezes em tom jocoso, de que vivemos numa euforia carnavalesca de permanente criação de novos rótulos, sendo verdadeira na literalidade – o acrónimo LGBTQIA+ não para de crescer -, esquece a essência do movimento: estas pessoas pretendem mostrar que existem múltiplas formas de subjetivação, muito para além das tradicionais lógicas sexonormativas e que estas formas de subjetivação “desviantes” devem ter direito a uma identidade despatologizada.

E nós, enquanto coletivo conseguiremos olhar para as assexualidades como uma das muitas soluções sexuais possíveis, sem as considerar como desvios patológicos em relação às soluções tradicionais?

É que a normalização das assexualidades não é um problema “deles”.

Uma sociedade que aceita ou censura estas formas de subjetivação, pode fazer a diferença entre a saúde mental e a culpa ou a vergonha, que, quando não transformadas, podem levar à depressão, ao ódio a si mesmo ou ao comportamento autodestrutivo.

Aqui chegados, a responsabilidade é de todos nós.


Dr. Pedro Fernandes, Psicólogo Clinico e Psicoterapeuta


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