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Alcina Jacinto Faneca, a Cigana com Alma



Alcina Faneca, uma mulher de 29 anos que apesar de ser cigana, é uma jovem Mãe e advogada.


Apesar da sua comunidade ter a sua própria forma de viver, as suas próprias leis, Alcina nunca deixou de desistir dos seus sonhos.


Hoje, advogada, sendo na sua comunidade pioneira na área de advocacia, refere que nunca devemos desistir dos nossos objetivos quer pessoais quer profissionais.


Nesta entrevista fala-nos como se vive numa comunidade tão complexa, tão rica de costumes e tradições, onde abre o seu coração.


Como se define como mulher?


Considero-me uma mulher determinada, lutadora, perfeccionista e muito ambiciosa, mas acho que até pode ser defeito, porque nunca estou contente, quero fazer sempre mais e melhor, onde procuro sempre a perfeição naquilo que faço.

Também sou muito sensível e amo as pessoas que estão à minha volta no meu dia-a-dia.

Sente-se uma mulher realizada?


Sim, sinto-me realizada.


Acha que o facto de ser Mulher cigana afetou as suas relações amorosas e pessoais?


Não de forma alguma.

A nível pessoal de amizades e do meu círculo de amigos, pessoas que lido e que trabalho diariamente, não tenho qualquer tipo de problema, o facto de eu ser cigana sempre me ajudou bastante, até porque as pessoas, algumas, procuram-me por curiosidade e precisamente por ter estas origens.


Como define o seu percurso de vida com 29 anos?


Foi tipo uma montanha russa, a nível profissional quer a nível pessoal.

A nível profissional terminei a minha licenciatura e mestrado em Direito Criminal, consegui atingir os meus objetivos, a nível pessoal foi mais atribulado pois fui mãe na fase em que tinha mais de estudar, mas felizmente tudo acabou bem.

No entanto, tenho uma filha maravilhosa e sou uma mulher muito feliz.



Acredita que existe amor à 1ª vista na sua raça?


Claro que sim, é o que mais existe! (risos)

Por norma os homens dentro da comunidade não podem abordar as raparigas assim como fazem fora da comunidade cigana.

Geralmente, quando há uma festa, ou quando se cruzam os olhares, só mesmo os olhares, porque normalmente nem sequer pode existir aquele contato físico, isso torna tudo mais especial e aí é tudo mais óbvio.

Quando casou foi por livre vontade?


Sim foi.


Com que idade casou?


Casei aos 25 anos e engravidei logo a seguir.


O seu casamento foi segundo as leis ciganas?


Sim.

Que tipo de cerimônia se faz no casamento cigano?


Costuma-se fazer festas de dois ou três dias, com muita dança, alegria, felicidade, amor, tudo para ser uma festa perfeita e digna de ser vista e falada.




É costume ou tradição as mulheres ciganas irem virgens para o casamento?


Acontece que isso é uma tradição que se mantém ao longo dos tempos, em que eu sou apologista desta.

Mas existem famílias que isso não lhe é imposto.

No meu caso, na minha família, essa tradição não me foi imposta, o meu pai deu a total liberdade para nós, eu e a minha irmã decidirmos se o fazíamos ou não.

Quanto tempo esteve casada?


Cerca de dois anos.


Teve a liberdade para se separar do seu ex marido?


Sim, sem qualquer pressão por parte da minha família.


Sentiu alguma pressão por parte da comunidade?

Não.

Como é ser mulher cigana divorciada?


Penso que na comunidade já acontece muito e cada vez mais as pessoas têm mais liberdade, vontades e quereres próprios de seguir com as suas vidas como entenderem.

Para mim, não foi tão difícil porque não vivia em função de um homem. Já era e sou uma mulher independente com o meu próprio trabalho, com as minhas próprias vontades e convicções daí ter ido em frente com o divorcio!

Embora tenha a noção que um divorcio não é nada fácil, mas também tenho noção que existem muitas mulheres dentro da comunidade que não têm objetivos de vida e a forma de viver é como o que lhes incutiram na comunidade e vivem dessa forma e jeito.

Neste momento como mulher divorciada que sou, vivo muito para a minha filha, para mim, para a profissão e sou e estou muito feliz assim e, portanto, isso não me causa qualquer complicação ou diferença.

Como é que a comunidade vê a traição?


A traição é vista como ato muito grave a falta de lealdade para com o outro é algo imperdoável.

Também existe um desrespeito com a família devido aos valores que nos ensinam, sobretudo o respeito.

Segundo a lei cigana a Mulher tem um papel secundário na etnia, como vê isso, ou qual a sua opinião?


A mulher cigana só tem papel secundário em determinados aspetos.

Normalmente a mulher tem um papel primário nas lides domésticas, no cuidar e educar os filhos, entre outros, mas que no meu ver isso não está correto.

Nós mulheres, tal como os homens, devemos ter os mesmos direitos, oportunidades que eles, tanto no ir à escola, concretizar sonhos e ter objetivos de vida.


Com o passar dos anos , considera que existe uma maior abertura da comunidade cigana?


Em algumas zonas do país, considero que sim!

Apesar de existir ainda aquela ideia enraizada de que as meninas não podem ir à escola a partir de uma certa idade, agora já vão e daí alguma mudança e abertura por parte da comunidade.

Também já existem muitos incentivos e programas para ajudar as crianças a ir à escola e seguir um percurso escolar quer secundário, quer universitário e para terem um futuro melhor.

Considera que ainda existe muito preconceito?


Sim, mas para quebrar este preconceito existe uma maior compreensão, aceitação dos ciganos e não ciganos.

Tratar os assuntos, tradições de uma forma mais suave, não tão brusca onde deve existir sempre o diálogo.

Mas aos poucos o preconceito vai diminuindo, e estamos no caminho certo!

Como é que a etnia cigana vê a homossexualidade?


Segundo se sabe não é bem aceite na comunidade, sendo considerado vergonhoso para as famílias.

O seu coração como está?


Neste momento o meu coração só tem a minha filha, o verdadeiro amor incondicional e verdadeiro de Mãe para Filha e vice-versa, contudo o futuro só Deus sabe, de certeza que também encontrarei, o meu príncipe encantado. (risos)


O amor vence o preconceito?


Sim, se for verdadeiro sem dúvida.

Na parte da comunidade já vi ciganos e não ciganos a casarem-se e a viver muito felizes e com muito amor.


O amor tem raça?


Não tem raça! Até porque quando decidi a minha vida segui o meu caminho e instinto.


Alcina Jacinto Faneca, Advogada







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