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A Ervilha Congelada, por Márcia Lima Soares



5 de Maio de 2024, Dia da Mãe

Márcia Lima Soares, 41 anos, do signo Peixes, natural de Setúbal e Mãe.  Professora, ativista, escritora e investigadora no campo dos Estudos Medievais, encontra-se a fazer o seu doutoramento. Autora da obra A Ervilha Congelada, uma obra infantil sobre bebés que nasceram através da fertilização in vitro.



Ligada a um passado muito religioso na Igreja Mórmon, começou a perceber a sua homossexualidade a partir dos 23 anos, quando tentou entender melhor os seus sentimentos e emoções. Foi muito difícil assumir a sua homossexualidade, devido à religião, porque gostar de pessoas do mesmo sexo contrariava a sua ideologia religiosa. O objetivo da igreja era ter um casamento hétero e filhos, por isso teve de deixar a sua fé, chegando mesmo a ser excomungada.


Iniciou uma batalha, em 2014, para conseguir ser Mãe. A primeira vez que tentou engravidar teve de ir a Espanha, para fazer um tratamento de Procriação Medicamente Assistida, que estava apenas reservado a casais heterossexuais, no nosso país, mas só em 2020 tornou esse sonho realidade, já em Portugal, uma vez que a lei foi alterada em 2016.


O processo de concretizar a maternidade foi muito difícil e longo, teve de recorrer a terapia, porque era complicado gerir as expectativas sobre algo que poderia não acontecer, mas aconteceu! E hoje são um casal feliz.




Em 2022 recorreu ao método ROPA, também conhecido por maternidade partilhada, sendo que foram presenteadas, em fevereiro de 2024, com a chegada de um menino – o Tiago. A sua companheira, Sandra, fez uma punção ovárica, seguida de uma fertilização in vitro e, posteriormente, foi transferido um embrião para o útero da Márcia. Após duas transferências, só a terceira resultou numa gravidez evolutiva.


Ao assinalar o Dia da Mãe, nesta entrevista ao Love with Pepper, Márcia abre o seu coração para falar de um dos AMORES mais puros que o ser humano pode sentir – o de MÃE – e que, apesar destas adversidades todas, nunca esta jovem refere a palavra «desistir», afirmando que devemos sempre tentar, enquanto a nossa estabilidade mental o permitir.

 

Para si o que é a homossexualidade?

A homossexualidade não é uma escolha, nasce connosco e, por vezes, apercebemo-nos muito tarde. Para mim, a orientação sexual é algo normal e é importante tentar desmitificar e esclarecer o que é a homossexualidade, fornecendo mais informação sobre o tema.




O que é ser Mãe?

O ser Mãe, para mim, foi de facto muito compensador e gratificante, porque sempre desejei sê-lo. Temos de perceber que vamos criar um ser totalmente novo e inigualável e que temos de respeitar a sua liberdade, o seu espaço e dar-lhe muito AMOR.


Como foi o nascimento e ver a Laura pela primeira vez?

Quando colocaram a minha filha no meu colo, não queria acreditar! Apesar de ter sido um processo muito duro e doloroso, de muitos anos, foi um dos dias mais felizes e gratificantes, porque queria muito ser Mãe.


Como define a sua filha Laura?

É uma menina muito feliz, bem-disposta, alegre, mas, também, faz as suas birras. Muito segura daquilo que quer e com respostas muito inteligentes.



Que receios tem na educação da sua filha, tendo em conta que tem duas mães?

Tenho alguns, embora, aqui em casa, temos vindo a gerir o assunto, recorrendo a livros e histórias que representem a nossa família, mas, por vezes, fora do contexto familiar, poderá ser sujeita a opiniões e formas de pensar diferentes. Estamos a educá-la de modo a ter ferramentas para poder dar as respostas certas.


Considera que a referência masculina é importante na educação de uma criança?

Cada vez falo menos em géneros e não gosto de generalizar. Temos de ter referências de pessoas. Existem homens, existem mulheres, mas acima de tudo existem pessoas. A Laura tem noção que existem famílias diferentes, tem contacto com pessoas no seu dia-a-dia e estão lá as referências de que ela precisa para a sua educação.


Que estereótipos e preconceitos desafiam, nos dias de hoje uma família homoparental?

Existem sempre desafios nas famílias homoparentais. Com o crescimento da extrema-direita, com a falta de informação e devido a tanta desinformação, patente nos meios de comunicação, como a Internet, televisão, etc., acredito que existam cada vez mais preconceitos validados, o que não faz sentido existir.

Em pleno séc. XXI ainda falta fazer muitas coisas, por exemplo: os documentos da segurança social nomeiam apenas os casais heterossexuais e ainda não foram atualizados.


Como é que acha que a nossa sociedade vê a maternidade e paternidade homossexual?

Acho que é sempre mais fácil ver duas mães do que dois pais e ainda existe preconceitos em relação a um casal de homens. No geral, não imaginamos dois homens a cuidar, porque a sociedade atribui papéis de género, em que o Pai é o provedor e a Mãe tem mais tarefas domésticas (não esquecendo as diferenças salariais). Julgo que tem de haver um trabalho na escola, na televisão, entre outros meios, para informar e quebrar o preconceito que existe.



O AMOR parental tem género e orientação?

O AMOR parental não é uma questão de género nem de orientação, é apenas AMOR.


E o que é o AMOR?

O AMOR é imensurável e deveria ser incondicional, muito para além daquilo que nós desejamos e sentimos pelos nossos filhos.


O AMOR vence o preconceito?

O nosso AMOR próprio deve estar em linha com o AMOR que sentimos pelos nossos filhos e deve haver um equilíbrio, porque se não estivermos bem não conseguimos dar, nem educar para que sejam independentes. Não devemos aceitar tudo e pôr limites, quando são ainda crianças, porém, devemos ter a capacidade de receber e dar AMOR, para que seja mais fácil compreendermos as suas escolhas e, acima de tudo, ter em mente que são pessoas que devem ser entendidas e respeitadas. Assim, o AMOR vence o preconceito.


Márcia Lima Soares, Professora, Escritora e Ativista

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